ENXAQUECA: ABORDAGEM NO TRATAMENTO PELA ACUPUNTURA

ENXAQUECA: ABORDAGEM NO TRATAMENTO PELA ACUPUNTURA
0 08/03/2017

ENXAQUECA: ABORDAGEM NO TRATAMENTO PELA ACUPUNTURA

Autor: Lilia Muniz Berriel

 

Resumo: A enxaqueca tem sido considerada uma doença crônica, afeta a vida de milhares de pessoas e causa impactos significativos na sociedade. O tratamento para   frequentemente é associado ao abuso de medicamentos, e, posteriormente a consequentes reações adversas e a cefaleia de rebote. O objetivo deste trabalho foi verificar os acupontos que tem sido utilizado para tratamento de enxaqueca através da acupuntura. Foram priorizados artigos na base de dados BVS e obras literárias, publicados nos últimos 10 anos.   Os resultados evidenciam que os acupontos através dos tipos de enxaqueca e sua sintomatologia, tais como: exterior (vento frio, vento calor e vento umidade), inferior (subida do YANG do fígado, fogo do fígado, vento fleuma turvo calor do estômago dentre outros) e deficiência (QI, sangue e rim) que tem sido utilizado para eficácia no tratamento da enxaqueca, reduzindo a necessidade de medicação, proporcionando analgesia, relaxamento e qualidade de vida. A acupuntura é destacada como uma terapia não medicamentosa efetiva para tratar a enxaqueca, que além de controlar a dor, é uma especialidade segura, econômica e sem efeitos colaterais.

 

Palavras-chave: Enxaqueca; Tratamento; Acupuntura.

 

Abstract: Migraine has been considered a chronic disease, affects the lives of thousands of people and cause significant impacts on society. The treatment is often associated with drug abuse, and subsequently the resulting adverse reactions and headache rebound. The aim of this study was to verify the acupoints that has been used for migraine treatment through acupuncture. They were prioritized items in BVS database and literary works published in the last 10 years. The results show that the acupoints through the types of migraine and its symptoms, such as: outside (cold wind, heat, wind and wind humidity), lower (rise in liver YANG, liver fire, wind phlegm turbid heat stomach among others) and disability (QI, blood and kidney) which has been used for efficacy in the treatment of migraine, reducing the need for medication, providing analgesia, relaxation and quality of life. Acupuncture is highlighted as a non-drug therapy effective for treating migraine, which in addition to controlling pain, it is a safe specialty, economic, and no side effects

 

Keywords: Migraine, Treatment, Acupuncture.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

A acupuntura é uma das modalidades da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que tem sido utilizada para tratamento e prevenção das doenças há mais de três mil anos, técnica que consiste na inserção de agulhas em pontos específicos, sendo utilizado em doenças dolorosas e não dolorosas (BRANDÃO, et al. 2013).

A enxaqueca possui aspecto paroxístico caracterizado por eventos recorrentes de dor incapacitante, com frequência e duração variáveis, intervalados por períodos assintomáticos. Ocorre comprometimento do sistema nervoso central, do sistema nervoso autónomo e de outros aparelhos e sistemas. Caracteriza-se por ataques recorrentes de cefaleia unilateral, pulsátil, associada à disfunção autônoma. Seus principais agentes etiológicos são: estresse, desequilíbrios neuroendócrinos, alimentos com potencial alergênico e deficiências nutricionais (BARROS; MACHADO; PALMEIRA, 2006).

Segundo Iglesias; Bottura; Naves (2009) a enxaqueca é um tipo de dor referida à superfície da cabeça, a partir de estruturas cefálicas profundas. Existem vários tipos de enxaqueca, algumas são por estímulos dolorosos de origem intracraniana e outras resultam de dores extras cranianas. As principais manifestações clínicas são: náuseas, perda da visão em parte do campo visual e outros tipos de alucinações sensoriais, que se iniciam 30 minutos à uma hora antes do início da patologia.

A enxaqueca é uma cefaleia idiopática, que acarreta crises com durabilidade de aproximadamente 4 a 72 horas, com localização unilateral, de natureza pulsátil de intensidade moderada a severa, podendo ou não ser acompanhada por aura. A aura consiste em sintomas neurológicos com origem no córtex cerebral, que geralmente precede a cefaleia (MONTEIRO, 2005).

Dentre suas denominações mais comuns estão a migrânia ou enxaqueca, que é um tipo de cefaleia caracterizada por crises recorrentes acompanhadas de náusea, vômito, fonofobia. Logo, entende-se o por que dos autores estudados citarem “cefaleia” ao invés de “enxaqueca” (BRANDÃO, et al. 2013).

Estudos acerca da epidemiologia da enxaqueca no Brasil descrevem que a altas prevalências na população brasileira, com variação entre 43% a 93%, quando confrontadas a estimativas de prevalências no mundo, a qual é da ordem de 46% na população adulta  (CORREIA; LINHARES, 2014).

No entanto, para Pahim; Menezes; Lima (p. 693, 2006):

Na classificação da International Headache Society, a enxaqueca está incluída no grupo de cefaléias primárias, sendo considerada por alguns autores mais incapacitante do que doenças como a hipertensão arterial, a osteoartrite e a diabetes. Acarreta, além do sofrimento individual, prejuízo econômico de custos diretos (atenção médica, medicamentos) e indiretos (diminuição da produtividade e falta ao trabalho).

 

A prevalência populacional global da enxaqueca é estimada em 11%, sendo mais frequente no sexo feminino, com características incapacitantes e mais duradouras nas mulheres. Ocorre com maior incidência em torno dos 30 aos 50 anos, sendo menor nas crianças e nos idosos (SPECIALI, 2011).

Atualmente a procura por tratamentos alternativos tem aumentado face ao insucesso muitas vezes dos tratamentos medicamentosos para doenças crônicas, tais como: dieta alimentar, práticas de exercícios físicos, plantas medicinais e acupuntura (BRANDÃO, et al. 2013).

O objetivo da presente pesquisa é verificar os acupontos que tem sido utilizado para tratamento de enxaqueca através da acupuntura. Foram consultados artigos científicos com na  base de dados eletrônico da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), para tanto, utilizou-se os termos: acupuntura, enxaqueca, acupuntura no tratamento da cefaleia. Com critérios de inclusão, artigos em língua portuguesa e publicações nos últimos 10 anos. Também foram utilizados obras literárias relevantes ao tema.

 

2 REVISÃO DE LITERATURA

 

2.1.1- CONCEITO E MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 

 

Stefane (et al. p. 354, 2012):

A enxaqueca, também conhecida como migrânea é uma doença neurovascular que se caracteriza por crises repetidas de dor de cabeça que podem ocorrer com uma freqüência bastante variável: enquanto alguns pacientes apresentam poucas crises durante toda a vida, outros relatam diversos episódios a cada mês. Uma crise típica de enxaqueca é reconhecida pela dor que envolve metade da cabeça, piora com qualquer atividade física e está freqüentemente associada à náusea, vômitos e desconforto com a exposição à luz e sons altos, podendo durar até 72 h. Um conjunto de sintomas neurológicos, conhecido pelo nome de aura, costuma acompanhar o quadro de dor.

 

A enxaqueca é caracterizada por crises recorrentes constituídas por até 4 fases. Nem sempre todas as fases estão presentes em todas as crises e/ou em todos os pacientes. A crise enxaquecosa pode ser constituída apenas por apenas uma dessas fases (SPECIALI, 2011).

  • A primeira fase (pródromos): sintomas premonitórios precede a cefaleia por horas ou até um dia. O paciente fica irritadiço, raciocínio e memorização mais lentos, desânimo, tem avidez por alguns tipos de alimentos e o sono é agitado e com pesadelos.
  • A segunda fase (aura): ocorrem sintomas neurológicos inequivocamente atribuíveis ao córtex ou tronco cerebral, desenvolve-se gradualmente em 5 a 20 minutos e dura menos de 60 minutos. A aura típica é um distúrbio visual constituído por pontos luminosos,ZIG-ZAG brilhantes, perda ou distorção de um dos hemicampos visuais ou parte deles. Inicia-se na região central e vai caminhando para um dos lados até desaparecer no campo temporal.
  • A terceira fase (cefaleia): que é de forte intensidade, latejante/pulsátil, piorando com as atividades do dia-a-dia, atrapalhando ou mesmo impedindo o prosseguimento das atividades, necessitando ir para cama, em lugar escuro e silencioso, pois surge, ainda, náusea e/ou vômitos, sensibilidade à luz e a sons. A dor é unilateral em 2/3 das crises, geralmente mudando de lado, de uma crise para outra. Predomina nas regiões anteriores da cabeça (órbita ou região fronto temporal).
  • A quarta (pósdromo) é o final da crise, fase de exaustão. Os pacientes ficam horas ou até dias com uma sensação de cansaço, fraqueza, depressão, dificuldade de concentração, necessitando de um período de repouso para seu completo restabelecimento.

Portanto, a crise de enxaqueca, quando tem suas 4 fases, pode durar dois ou mais dias e, durante esse período, o paciente fica total ou parcialmente incapacitado para exercer suas atividades normais no trabalho, na família ou no lazer.

Segundo Santos (2012) estão divididos em: primárias (migraria e tipo tensional); as secundárias (atribuída a traumatismo cranio-encefálico e/ou cervical, a doença vascular craniana, o cervical a perturbação intracraniana não vascular, atribuída a infecção, atribuída a perturbação da homeostase, dor facial atribuída a desordens do crânio, pescoço, olhos e ouvidos, e por fim, atribuída a transtorno psiquiátrico).

As cefaleias segundo sua etiologia podem ser classificadas em primárias e secundárias. As cefaleias primárias são as que ocorrem sem etiologia demonstrável pelos exames clínicos ou laboratoriais usuais. As cefaleias secundárias são as provocadas por doenças clínica ou neurológica. É de suma importância à distinção entre esses dois tipos de cefaleia, tendo em vista, que as primeiras interferem na qualidade de vida, por serem crônicas, as segundas podem ter complicações graves e mesmo fatais (SPECIALI, 2011).

As enxaquecas se caracterizam por manifestação álgica de moderada/forte intensidade, freqüentemente incapacitando o indivíduo para suas atividades cotidianas, além de, serem acompanhadas por sintomas gastrintestinais (náuseas e vômitos), neurológicas  (hemianopsia, parestesia, paresia, ataxia) e fenômenos associados (foto e fonofobia). O diagnóstico de enxaqueca para adultos prevê a ocorrência de mais de cinco crises, com duração entre quatro (duas horas para menores de 15 anos) e 72 horas, também são avaliados   critérios relativos à localização e intensidade da  dor (CORREIA; LINHARES, 2014).

 

2.1.2- FISIOPATOLOGIA OCIDENTAL

 

Cada uma das fases da crise enxaquecosa é explicada por mecanismos fisiopatológicos diferentes, por ser uma doença provavelmente poligénica, multifatorial e com influência de fatores ambientais, o que dificulta o seu diagnóstico (IGLESIAS; BOTTURA; NAVES, 2009).

Para explicar a fisiopatologia da enxaqueca utiliza-se de quatro mecanismos: a teoria vascular da enxaqueca, depressão alastrante, sistema trigémico-vascular, diminuição da seretonina e vasodilatação por óxido nítrico.

A teoria vascular baseia-se na premissa da isquemia ser a causadora da aura, sendo que esta seria devida à hipoperfusão secundária à vasoconstrição do vaso sanguíneo responsável pela irrigação da área cortical correspondente ao sintoma da aura. A vasodilatação dos nervos sensórios perivasculares que neste caso estarão dilatados.

Na depressão alastrante ocorre depressão da atividade elétrica no córtex cerebral, provocava a expressão de C-FOS, um marcador não-específico da ativação neuronal no núcleo do trigêmeo.

No sistema trigémio-vascular, ocorre dilatação dos vasos sanguíneos intra craniano. A fonte da dor é o próprio vaso, a uma estimulação antidrômica em fibras trigeminais que inervam os vasos intracranianos extracerebrais desencadeando uma inflamação neurogênica, ocorrendo liberação de substâncias vasoativas- substância P(SP), peptídeo vasoativo intestinal (VIP), neuropeptídeo Y (NY) e peptídeo relacionado com o gene da calcitonina (CGRP) que acarreta aumento da permeabilidade vascular e extravasamento plasmático para a adventícia do vaso.

Na diminuição da seretonina plasmática e seu catabólico ocorre ação constritiva no leito carotídeo, agindo sobre receptor atípico (não bloqueado por ciproeptadina ou mianserina).

No caso do óxido nítrico, os mais prevalente nos ataques dolorosos de enxaqueca, sendo uma molécula que atravessa a membrana facilmente e não precisa de receptor específico,  produz vasodilatação e estimulação dos aferentes perivasculares, produzindo nociceptivos (ORTIZ;  RAFFAELLI JR, 2002).

 

2.1.3- TRATAMENTO DA ENXAQUECA OCIDENTAL

 

O tratamento da cefaléia pode ser dividido em sintomático, que é aquele utilizado para a fase aguda ou álgica, na qual as drogas têm como objetivo reduzir o número e/ou a intensidade das crises.  Os analgésicos comuns, como o ácido acetilsalicílico (AAS), a dipirona e o paracetamol são os medicamentos mais utilizados. Os analgésicos antiinflamatórios não esteroides (AINE), tais como ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco, também são bastante utilizados e apresentam eficácia clínica.

O tratamento profilático pode ser utilizado naqueles pacientes que apresentam uma freqüência ou severidade de crises, seu objetivo é reduzir em pelo menos 50% a freqüência dos episódios ou sua intensidade, ou os fenômenos associados e administrados por períodos de pelo menos 6 meses (GHERPELLI, 2002).

Existem também técnicas de relaxamento, retro- controlo biológico, fisiotarapia, psicoterapia, cirurgia (termo-coagulação do gânglio de gasser, secção da raiz oftálmica do nervo, dentre outros) e acupuntura. Sabe se que as medidas variam de acordo o tipo e causa de enxaqueca (SOCIEDADE PORTUGUESA DE NEUROLOGIA, 2009).

 

2.2.1- CONCEITO E MANEJO CLÍNICO DE ENXAQUECA NA MEDICINA CHINESA

 

Ma; Ma (2006) afirmam que a enxaqueca para medicina chinesa é resultado de desequilíbrio ou alterações nas substâncias químicas cerebrais, tais como, serotonina e a noradrenalina. Quando essas substâncias são desequilibradas causam inflamação das artérias do escalpo, e irritação das estruturas sensíveis à dor que se originam estímulos no nervo trigêmeo, que é responsável pelo envio dos impulsos dolorosos para os centros de dor no cérebro.

A acupuntura tem a função de causar analgesia no encéfalo, com alguns acupontos   sistêmicos e auriculares que têm por consequência proporcionar a formação de endorfinas,   os estímulos da dor são lesivos para o encéfalo, que pode sofrer desde uma alteração de comportamento a um estado de choque. O sistema nervoso central possui mecanismo de controle de dor que se situa na região periventricular do diencéfalo, na substância cinzenta periaquedutal, nos núcleos da rafe mediana, no feixe medial do prosencéfalo, no hipotálamo, na hipófise, na substância gelatinosa no corno posterior da medula espinhal e nos núcleos intralaminares do tálamo. Essas áreas de controle da dor que o acupontos atuam no encéfalo e na medula são excitadas frente a estímulo doloroso por meio de substâncias opiáceas, como as encefalinas e as endorfinas (YAMAMURA, 2004).

Brandão (et al. 2013) acrescentam que:

A atuação da acupuntura no controle da dor ocorre através da ativação de vias opiódes e não opoiódes, e sistema modular da dor, isso se deve a uma hiperestimulação das terminações nervosas presentes nas fibras mielínicas que conduzem estímulos aos centros medulares, encefálico e eixo hipotálamo-hipofisário.  O núcleo hipotalâmico possui importante papel na analgesia promovida pela acupuntura, pois este secreta arginina-vasopressina e ocitocina, fazendo aumentar o limiar da dor.

 

Na medicina chinesa as enxaquecas ocorrem numa série de padrões patológicos.   Considera o cérebro o “mar da medula” e o ápice do YANG QI, portanto a cabeça é local onde ocorre a reunião do YANG QI e a essência dos órgãos (ZANG). Por isso, desequilíbrios nos ZANG FU, bem como, ataques de fatores patogênicos exógenos, irão alterar a boa fluência do XUE e do QI para cabeça acarretando na enxaqueca.

Qualquer distúrbio energético capaz de gerar uma doença poderá contribuir na etiologia da enxaqueca. Se a essência e o QI forem fracos, pode afetar os órgãos e vísceras e a emoção, ocasionando a ascensão do YANG do fígado, portanto a raiva, a preocupação que ocorre nódulo no QI do pulmão e coração, e medo que é uma deficiência do rim. O enfraquecimento do QI do baço/pâncreas, o YIN do rim, provoca  dores em toda a cabeça, ou permite que o YANG do fígado ascenda e cause cefaléia do tipo enxaqueca sobre o meridiano da vesícula biliar (MACIOCIA, 1996).

A enxaqueca esta precipitada pelo aspecto emocional no que concerne a alguns aspectos, como: raiva: ascensão do YANG do fígado, ascensão do fogo do fígado, causa cefaleia na região do meridiano da vesícula biliar; Preocupação: cria nódulo no QI, em particular no QI do pulmão e coração. Está é freqüentemente uma causa indireta de cefaleia, uma vez que a deficiência de QI do pulmão pode admitir a ascensão do YANG do fígado;  Medo: um estágio crônico de ansiedade e medo prejudica os rins e causa dores de cabeça   pela deficiência do Rim que provoca a ascensão do YANG do fígado.

As emoções, quando excessivas ou reprimidas por suas características YANG podem ter efeito rápido sobre seus órgãos correspondentes, lesando a parte YIN destes. Na relação lesiva das emoções sobre os òrgãos, temos que, a raiva lesa o fígado, a alegria excessiva e/ou ansiedade lesa o coração, a preocupação excessiva lesa o baço/pâncreas, a tristeza lesa o pulmão e o medo ou pavor lesa os rins. O estado de raiva, nervosismo irritação e agressividade lesam o Qi do fígado, que por suas conexões energéticas podem manifestar em cefaléias, cervicalgias, torcicolo espasmódico, conjuntivite, dor ocular, hipertireoidismo, palpitações, gastrite, úlcera gástrica, dorsalgia, lombalgia, alterações menstruais, dismenorréia, infertilidade, cisto de ovário, endometriose, colpite, câncer do colo do útero, displasia mamária, câncer da mama, alterações hormonais. (YAMAMURA, 2004)

Algumas enxaquecas estão integradas a influências nocivas externas, internas ou deficiência de QI, sangue e Rim. É de suma importância que seja feito um diagnóstico correto para realização da terapêutica, tendo em vista, que o tratamento errado pode piorar a patologia (ARAÚJO; ALMEIDA, 2009) (MACIOCIA, 2009).

Os mecanismos envolvidos na produção da enxaqueca na medicina chinesa têm dois quadros de diagnóstico: por meridiano, com base na localização e trajeto da dor; ou por síndrome, dependente de fatores externos ou internos e características da dor. Os meridianos envolvidos na cefaleia: vesícula biliar caracterizando a cefaleia SHAOYANG, baço/pâncreas na cefaleia TAIYIN, bexiga na cefaleia TAIYANG, fígado na cefaleia JUEYIN e menstruação, estômago na cefaleia YANGWEI, cefaleia na região do vértice com comprometimento da mente, cefaleia por vazio sangue e QI, afecções por vento, cefaleia generalizada afetando todo o encéfalo, cefaleia YINWEI agregada à dor precordial (MACIOCIA, 1996) (YAMAMURA, 2004).

Para tratamento da enxaqueca primeiramente ocorre à identificação das causas da enxaqueca, seguido de um processo terapêutico abrangente ajustado ao diagnóstico e às características do indivíduo.

Cabe ressaltar que a acupuntura atua em vários níveis do cérebro:

  • Ativando um circuito denominado sistema supressão da dor (também conhecido como sistema inibitório descendente);
  • Promovendo a liberação de endorfinas (substâncias semelhantes à morfina, fabricadas nos neurônios, que promovem sensação de alívio da dor e bem-estar);
  • Aumentando os níveis de serotonina no líquor e tronco cerebral inferior;
  • Diminuindo a liberação de substâncias cerebrais relacionadas à dor.

A acupuntura procura a supressão da patologia e não apenas atenuar os sintomas.   Pretende-se a eliminação das causas da enxaqueca devolvendo ao paciente o bem estar e qualidade de vida (WEN, 2009) (AUTEROCHE; NAVAILH, 2004).

Nas sessões de acupuntura, a dor de cabeça e a enxaqueca são meramente sintomas, ou seja, manifestações de alguma síndrome de base. São colocadas agulhas em pontos vitais, tendo em vista, repor a circulação de energia pelos meridianos afetados.

Em todos os tipos de cefaleias, a acupuntura é uma ferramenta poderosa, que geralmente alivia a dor em questão de minutos. Um ponto utilizado para todos os tipos de cefaleias é o IG4, uma vez que alivia a dor em geral, além de ser um ponto específico para as moléstias que afetam a cabeça. Outros pontos são selecionados de acordo com o local da dor, como na parte posterior da cabeça o VB20, nas têmporas o extra TAIYANG ou na testa o E (ARAÚJO; ALMEIDA, 2009) (WEN, 2009).

Além da acupuntura, a dietoterapia é parte importante do tratamento, fazer algumas mudanças no estilo de vida e na alimentação é fundamental para eliminar a causa subjacente das enxaquecas. Quando a causa é calor no fígado, deve-se evitar comer alimentos apimentados e gordurosos, e a diminuição do estresse deve ser prioridade número um. Se a síndrome for deficiência de QI ou sangue, a dieta deve ser modificada para acrescentar mais grãos integrais, feijões, nozes, verduras de cor escura e verduras orgânicas e frescas. Os alimentos de origem animal fortalecem o QI e o sangue, mas devem ser ingeridos em pequenas quantidades (BARROS, MACHADO; PALMEIRA, 2006) (BRANDÃO, et al. 2013) (IGLESIAS; BOTTURA; NAVES, 2009) (WEN, 2009).

Salienta-se que a dieta tem intensa influência na etiologia das cefaleias. Podendo acometer distintos órgãos e localização da dor, a falta de alimentação pode causar deficiência de QI e sangue e a localização da dor geralmente é no topo da cabeça, o excesso de alimentação obstrui o QI do estômago, enfraquece o baço/pâncreas e a localização é frontal com característica aguda, no caso de excesso de alimentos quentes podem causar fogo no fígado e/ou calor no estômago e a localização da dor é temporal e frontal respectivamente, com característica aguda. O excesso de alimentos que causam umidade afeta o baço/pâncreas e provoca mucosidade, a localização da dor é frontal, com sensação de peso na cabeça (MACIOCIA, 1996).

O diagnóstico de enxaqueca de acordo com os meridianos:

  • Dor no topo da cabeça (ligada aos meridianos do fígado e do mestre do coração e é mais frequente devido à deficiência de sangue no fígado, e ocorre quando ascensão do YANG do fígado).
  • Dor nos lados da cabeça (ligada aos meridianos do triplo aquecedor e vesícula biliar e é mais frequente devido à ascensão do YANG, fogo ou vento do fígado).
  • Dor de um lado da cabeça (ligado ao meridiano da vesícula biliar, atribuída à ascensão do YANG ou fogo do fígado).
  • Dor nas temporas da cabeça (característica do meridiano da vesícula biliar, e ascensão do YANG, Fogo ou Vento do Fígado).
  • Dor atrás dos olhos (dor é atribuída à deficiência do sangue do fígado, ascensão do YANG do Fígado se a dor for aguda e severa).
  • Dor na região frontal da cabeça (deficiência no estômago se esta for surda ou calor do estômago se for aguda).
  • Dor atrás da cabeça (deficiência do rim, manifestando-se no meridiano da bexiga,  invasão de vento externo e esta dor é acompanha com uma forte rigidez nas costas e pescoço).
  • Dor em toda a cabeça (deficiência do rim e será dor do tipo surda em toda a cabeça, acompanhado com sensação de vazio, invasão de vento externo, estas dores são severas e por vezes acompanhadas de uma sensação de puxão) (MACIOCIA, 1996) (ROSS, 2003) (AUTEROCHE; NAVAILH, 2004).

Segundo Maciocia (1996), o tratamento pode ser realizado de acordo com a origem a e manifestação ou primeiro a manifestação e depois a origem ou tratar apenas a origem. Na seleção dos pontos é essencial combinar pontos locais e distais. Dor crônica e intensa utilizar pontos locais, também nos casos de estase sanguínea. Os pontos distais são escolhidos de acordo com o meridiano envolvido. A dor por YANG do fígado manifestado no meridiano da vesícula biliar são indicados os pontos F3 (TAICHONG) e VB43 (XIAXI). Alguns pontos locais são escolhidos pela a localização da dor mesmo, dor no meridiano da vesícula biliar é indicado o VB6 (XUANLI); Cefaléia frontal: VG23 (SHANGXING) e VB14 (YANGBAI); Cefaléia no vértice: VG20 (BAIHUI) e VG21 (QIANDING); Cefaléia occipital: B10 (TIANZHU) E VG19 (HOUDING) e Cefaléia temporal: VB8 (SHUAIGU) e TAIYANG.

Seleção de pontos para tratamento de acordo com a etiologia e patologia:

  • Cefaleias de origem externa:

Vento frio: aliviar e expelir o vento, dispersar o frio e remover a obstrução dos meridianos. Pontos: LIEQUE (P7), FENGCHI (VB20), FENGFU (VG16), TIANZHU (B10), com método de dispersão;

Vento calor: aliviar o exterior, clarear o calor, expelir o vento e remover a obstrução dos meridianos. Pontos: HEGU (IG4), FENGCHI (VB20), FENGFU (VG16), DAZHUI (VG14), WAIGUAN (TA5), com método de dispersão;

Vento umidade: aliviar o exterior, expelir o vento, eliminar a umidade e remover a obstrução dos meridianos. Pontos: LIEQUE (P7), PIANLI (IG6), SANYINJIAO (BP6), TOUWEI (E8), SHANGXING (VG23), com método de dispersão.

  • Cefaleias de origem interna (excessos):  

Excesso do YANG do fígado: pacificar o fígado, conter o yang rebelde, nutrir o sangue do fígado ou YIN do fígado e/ou YIN do Rim, em conformidade com a etiologia. Pontos: TAICHONG (F3), QUQUAN (F8), SANYINJIAO (BP6), WAIGUAN (TA5), FENGCHI (VB20), TAIYANG e no caso de deficiência do YIN do fígado ou do rim acrescentar TAIXI (R3).

Excesso fogo do fígado: pacificar o fígado, clarear o fogo. Pontos: XINGJIAN (F2), SANYINJIAO (BP6), WAIGUAN (TA5), YANGFU (VB38), FENGCHI (VB20), TAIYANG.

Excesso vento do fígado: pacificar o fígado e extinguir o vento. Pontos: TAICHONG (F3), SANYINJIAO (BP6), FENGCHI (VB20), FENGFU (VG16), BAIHUI (VG20).

Excesso estagnação do QI do fígado: pacificar o fígado, eliminar estagnação, acalmar a mente e assentar o HUN. Pontos: TAICHONG (F3), YANGLINGQUAN (VB34), HEGU (IG4), ZUSANLI (E36), SHENTING (VG24), TAIYANG.

 Excesso estagnação de frio no canal do fígado: pacificar e aquecer o fígado, expelir o frio e conter o QI rebelde. Pontos: Taichong (F3) e Baihui (VG20).

Excesso umidade: eliminar a  umidade, estimular a ascensão do YANG puro, tonificar o estômago e o baço.  Pontos: TAIBAI (BP3), HEGU (IG4), LIEQUE (P7), ZHONGWAN (VC12), PISHU (B20), TOUWEI (E8).

Excesso fleuma turva: eliminar a mucosidade, conter o vento e pacificar o fígado. Pontos: FENGLONG (E40), HEGU (IG4), TAICHONG (F3), HOUXI (ID3), SHENMAI (B62), TOUWEI (E8), BAIHUI (VG20), FENGCHI (VB20).

Excesso retenção de alimentos: resolver a retenção de alimento, estimular a descida do QI do estômago, promover a digestão, harmonizar o aquecedor médio. Pontos: XIAWAN (VC10), LIANGMEN (E21), NEIGUAN (PC6), LIANGQIU (E34), LIDUI (E45), HEGU (IG4), TOUWEI (E8).

Excesso estase de sangue: movimentar o sangue e abrir os orifícios. Pontos: QUCHI (IG11), HEGU (IG4), SANYINJIAO (BP6), TAICHONG (F3) e pontos AH SHI.

Excesso calor no estômago: clarear o calor e o estômago, conter o QI rebelde. Pontos: NEITING (E44), HEGU (G4I), YINTANG.

  • Cefaleia por deficiência

 Deficiência de QI: tonificar o QI. Pontos: ZISANLI (E36), QIHAI (VC6), SANYINJIAO (BP6), BAIHUI (VG20).

 Deficiência de sangue: nutrir o sangue, tonificar e elevar o QI. Pontos: ZUSANLI (E36), SANYINJIAO (BP6), PISHU (B20), QUQUAN (F8), GUANYUAN (VC4), BAIHUI (VG20), XINSHU (B15).

Deficiência do Rim: tonificar os rins, nutrir a medula. Pontos: TAIXI (3R), ZUSANLI (E36), SANYINJIAO (BP6), BAIHUI (VG20), NAOKONG (VG19), para deficiência do rim YIN: GUANYUAN (VC4), para deficiência do rim YANG: SHENSHU (B23) (YAMAMURA; YAMAMURA, 2010) (MACIOCIA, 1996) (AUTEROCHE, B.; NAVAILH, 2004 ) (WEN, 2009).

 

3 CONCLUSÃO

 

O maior obstáculo para realização desta pesquisa é a escassez de fundamentação teórica de caráter científico acerca da acupuntura como tratamento da enxaqueca. Com este trabalho, ficou evidente a importância da realização de trabalhos de investigação acerca da temática.

Tendo em vista, que a enxaqueca afeta grande parte da população, faz se necessário   a identificação de fatores desencadeantes e do padrão de evolução das crises para se estabelecer acupuntos específicos  para o tratamento da enxaqueca.

Os autores pesquisados consideram a acupuntura como bom manejo no tratamento de enxaqueca, juntamente com outras medidas, no entanto, não se pode exigir da acupuntura mais do que ela pode ofertar, ou seja, todo o tratamento numa só modalidade.

Embora alguns autores preconizem que a acupuntura melhora o bem estar dos pacientes, seu papel principal é no manejo da dor. Dores localizadas tendem a responder mais do que a dor generalizada e a técnica funciona melhor quando o paciente apresenta uma área mais específica de dor, em um determinado grupo muscular.

O efeito analgésico da acupuntura requer aplicações periódicas, tendo em vista, que os resultados são temporários, acredita-se ter atingido ao objetivo deste estudo que foi enaltecer os acupontos no tratamento e torna-la real e palpável como tratamento de primeira escolha para enfermidades onde a dor.

 

4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICA

 

ARAÚJO, A. P. S; ALMEIDA, C. A. Terapia manual versus acupuntura no tratamento da

cefaléia: revisão de literatura. Saúde e Pesquisa. v. 2, nº 1, 2009.

Disponível em: <http://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/saudpesq/article/view/735>

Acesso em: 22 de junho de 2016.

 

AUTEROCHE, B.; NAVAILH, P. O diagnóstico na medicina chinesa. São Paulo: Andrei, 2004.

 

BARROS, J; MACHADO, J; PALMEIRA, M. Enxaqueca: fisiopatogenia, clínica e tratamento. Rev port de med clin geral e fam. v. 22, nº 4, 2006.

Disponível em: < http://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/10267>

Acesso em: 12 de maio de 2016.

 

 BRANDÃO, M. L. et al. Acupuntura no Tratamento de Portadores de Cefaleia. Cadernos ESP. v. 7, nº 2, jul/ dez. 2013.

Disponível em: < http://www.esp.ce.gov.br/cadernosesp/index.php/cadernosesp/article/view/108>

Acesso em: 22 de maio de 2016.

 

CORREIA, L. L; LINHARES, M. B. M. Enxaqueca e estresse em mulheres no contexto de atenção primária. Psico: teoria e pesq. v. 30, nº 30, 2004.

Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722014000200003&lng=pt&nrm=iso>

Acesso em: 18 de junho de 2016.

 

GHERPELLI, J. L. D. Tratamento das cefaleias. Jornal de Pediatria. v. 78, 2002.

Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/jped/v78s1/v78n7a02.pdf>

Acesso em: 15 de maio de 2016.

 

IGLESIAS, H. C. E; BOTTURA, R; NAVES, M. M. Fatores nutricionais relacionados à enxaqueca. Com. Ciências Saúde. v. 20, nº 3, 2009.

Disponível em: < http://www.escs.edu.br/pesquisa/revista/2009Vol20_3art04fatores.pdf>

Acesso em: 28 de maio de 2016.

 

MA, Y; MA, M; C, Z. H. Acupuntura Para o Controle da Dor: um enfoque integrado.   São Paulo: Roca, 2006.

 

MACIOCIA, G. A prática da medicina chinesa. São Paulo: Roca, 1996.

 

MACIOCIA, G. A prática da medicina chinesa: tratamento das doenças com acupuntura e ervas chinesas. São Paulo: Roca, 2009.

 

MONTEIRO, J. M. P. Cefaleias primárias: causas e consequências. Rev port de med clin geral e fam. v. 22. 2006.

Disponível em: < www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/download/10266/10002>

Acesso em: 28 de maio de 2016.

 

ORTIZ, F; RAFAELLI JUNIOR, E. Cefaléias primárias: aspectos clínicos e terapêuticos. São Paulo: Zeppelini, 2002.

 

PAHIM, L. S; MENEZES, A. M. B; LIMA R. Prevalência e fatores associados à enxaqueca na população adulta de Pelotas, Rio Grande do Sul. Rev Saúde Pública. v. 40, nº 4, 2006.

Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102006000500020&lng=pt&nrm=iso>

Acesso em: 05 de junho de 2016.

 

ROSS, J. Combinações dos pontos de acupuntura: a chave para o êxito clínico. São Paulo: Roca, 2003.

 

SANTOS, M. C. Cefaléia e disfunção têmporo mandibular. Grupo Editorial Moreira Jr.. v. 70, nº 7, jul. 2012.

Disponível em: < http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=5462>

Acesso em: 22 de junho de 2016.

 

SINAPSE, SOCIEDADE PORTUGUESA DE NEUROLOGIA. v. 9, nº 2, nov. 2009.

 

SPECIALI, J. G. Cefaleias. Cienc. e Cult. v. 63, nº 2, abr. 2011.

Disponível em: < http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252011000200012&script=sci_arttext>

Acesso em: 07 de junho de 2016.

 

STEFANE, T, et al. Influência de tratamentos para enxaqueca na qualidade de vida: revisão integrativa de literatura. Rev. bras. enferm.  v. 65, nº 2, 2012.

Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672012000200023&lng=pt&nrm=iso>

Acesso em: 05 de junho de 2016.

 

VERCELINO, R; CARVALHO, F. Evidências da acupuntura no tratamento da cefaleia. Rev Dor. v. 11, nº 4, out/ dez. 2010.

Disponível em: < http://files.bvs.br/upload/S/1806-0013/2010/v11n4/a1656.pdf>

Acesso em: 24 de maio de 2016.

 

WEN, T. S. Manual terapêutico de acupuntura. São Paulo: Manole, 2008.

 

YAMAMURA, Y.  Acupuntura tradicional: a arte de inserir. São Paulo: Roca, 2004.

 

YAMAMURA, Y; YAMAMURA, M. L. Propedêutica energética: inspeção e interrogatório. São Paulo: Center AO, 2010.