A FIBROMIALGIA (DOR CRONICA) SOB O OLHAR DA MEDICINA CHINESA

A FIBROMIALGIA (DOR CRONICA) SOB O OLHAR DA MEDICINA CHINESA
0 28/06/2016

A FIBROMIALGIA (DOR CRONICA) SOB O OLHAR DA MEDICINA CHINESA

 Autores:  Katia Cristina Garcia Damaso   e  Tânia Jarimba Petito

 

RESUMO

A Fibromialgia se caracteriza dentre outros sinais e sintomas, por um quadro de intensa dor e alterações emocionais. Existe uma controvérsia em relação a medicina ocidental e a oriental, já que na primeira não há uma causa definida, na segunda essa desordem ocorre devido ao desequilíbrio energético de deficiência do fígado e/ou rim. A acupuntura torna-se assim uma forma de tratamento muito eficaz, principalmente no controle do quadro álgico e apesar de não ser descrito na literatura a cura dessa patologia, observa-se uma melhor qualidade de vida dos indivíduos acometidos por esse desequilíbrio.

Palavras-chaves: Dor crônica, fibromialgia, acupuntura.

 

 

ABSTRACT

Fibromyalgia is characterized, among other symptoms and signs, by severe pain and mood swings. There is a conflict between Western and Eastern medicine on this matter: according to the first one there is no definite cause for the disorder; and according to the second one, it occurs due to energy imbalance caused by a deficient liver and/or kidney. Acupuncture became a very effective form of treatment, especially for pain control, which brings a better quality of life for individuals affected by this disease, even though the cure this pathology has not yet been described in the literature.

Keywords: Chronic pain, fibromyalgia, acupuncture

INTRODUÇÃO

Fibromialgia é entendida como uma síndrome reumática de etiopatogenia desconhecida, que atinge preferencialmente as mulheres com idade entre 40 e 55 anos, porém já existem casos diagnosticados em idades abaixo desta faixa etária, bem como em adolescentes e crianças. Essa patologia é caracterizada por dor musculoesquelética difusa e crônica, em pontos dolorosos do corpo, chamado de tender points, totalizando 18 pontos. Sendo que para que haja o diagnóstico é preciso que haja pelo menos 11 pontos dolorosos no corpo. Outros sinais e sintomas são caracterizados como fadiga generalizada, cefaléia crônica, distúrbios intestinais e do sono, irritabilidade, sensação de edema, ansiedade (alterações de humor), que comumente podem levar a depressão.

Esses sintomas acabam sofrendo interferência das influências climáticas, das atividades físicas e do estresse emocional, incidindo diretamente na intensidade da dor. (Martinez, 1998)

Os sintomas acabam interferindo na qualidade de vida do paciente com fibromialgia e na sua dinâmica física, social, psíquica e emocional. Esses pacientes acabam apresentando comprometimento no desempenho de suas atividades diárias, que consequentemente, afeta na relação com as pessoas com quem convivem. (Santos et al, 2006; Takiguchi et al, 2008)

O tratamento da fibromialgia considera o uso de medicamentos para alívio do quadro álgico, fisioterapia, psicoterapia, atividades físicas leves e de baixo impacto, bem como a acupuntura.

Apesar de a Medicina Ocidental considerar a fibromialgia como      uma patologia de etiopatogenia desconhecida, a Medicina Tradicional Chinesa considera a Fibromialgia como uma Síndrome de Obstrução Dolorosa, podendo tratar-se de uma síndrome superficial ou de deficiência, que compromete a pele, os músculos e os meridianos nos casos agudos. Nos casos crônicos acomete os músculos e tendões, podendo afetar os órgãos e as emoções, podendo também ser gerada por estas, quando vivenciadas por tempo prolongado.

Os sinais e sintomas apresentam-se sob a forma de formigamento, sensibilidade dos músculos e tendões; dor migratória, fadiga, rigidez muscular, cefaléia, edema, juntas quentes e vermelhas, deformidades ósseas e depressão. Sintomas esses comuns aos diagnosticados pela medicina ocidental.

O principio terapêutico para a Medicina Tradicional Chinesa baseia-se em expelir os fatores patogênicos (vento, frio, umidade), tonificar Qi e o sangue nutrir o Fígado e nutrir os rins, conforme Maciocia.

Conforme revisão bibliográfica pode-se perceber que a acupuntura tem-se destacado como recurso para o tratamento que acontece através da colocação de agulhas em pontos específicos do corpo, localizados nos canais e meridianos, que atuam significativamente no alivio da dor, bem como nos alivio dos demais sintomas, melhorando a qualidade de vida dos pacientes, pois as agulhas promovem a circulação e/ou desbloqueio das energias, gerando a harmonização, equilíbrio e fortalecendo o organismo.

Revisão de Literatura

Stival et al (2014) concluiram através de um estudo randomizado, controlado e duplo cego com 36 pacientes portadores de fibromialgia que a acupuntura é eficaz na redução imediata da dor, com efeito, bem significativo. Destes 36 pacientes, 21 foram tratados com os seguintes pontos de acupuntura: IG4, E36, F2, BP6, PC6 e C7, bilateralmente por 20 minutos e os outros 15 pacientes receberam acupuntura Sham (agulhamento placebo). Todos eles responderam a escala visual analógica da dor antes e após a sessão e o resultado favoreceu o procedimento verdadeiro satisfatoriamente.

Marques et al (2002) elaboraram uma pesquisa a respeito do tratamento da fibromialgia, a partir da fisioterapia, e dentre os recursos utilizados pela fisioterapia encontra-se a acupuntura. O trabalho considera favorável a pratica de atividades físicas de baixo impacto, são mais benéficos para os portadores de fibromialgia, mas outras atividades físicas também são benéficas como: o treinamento de força, alongamento, exercícios na água e em solo (aeróbico, alongamento, fortalecimento e relaxamento).

Esses autores fazem referência ao uso da eletroacupuntura e consideram que o efeito torna-se eficaz a curto-prazo no alivio dos sintomas da fibromialgia. Esse estudo vem de encontro a uma das prerrogativas da Medicina Tradicional Chinesa, que além da acupuntura, inclui a dietética e a pratica de atividade física, tendo em vista que esta auxilia na circulação do Qi.

Santos et al (2006) realizaram um estudo com quarenta indivíduos, com idade entre 35 e 60 anos, divididos em dois grupos de 20, um de teste e outro de controle. O primeiro grupo apresentava diagnostico de fibromialgia e o de controle não. Todos foram submetidos ao FIQ, ao Medical Outcomes Study 36-item Short-Form Health Survey (SF-36) que mede a qualidade de vida e a escala de depressão de Beck (BDS).

Esses estudos concluíram que os pacientes portadores de fibromialgia apresentaram pior qualidade de vida e altos níveis de depressão, se comparados ao grupo de controle, sugerindo uma relação entre depressão e fibromialgia, podendo ser a depressão em sintoma secundário.

Takiguchi et al (2008) realizaram uma pesquisa randomizada em uma população de 20 mulheres, entre 35 e 60 anos, mas a idade média ficou em torno de 44 anos. O grupo A foi tratado com acupuntura, segundo a Medicina Tradicional Chinesa, baseado na escolha de pontos baseado nas Síndromes do Zang Fu e na pulsologia e o grupo B recebeu o tratamento de acupuntura com a inserção de agulhas nos tender points: na região occipital, trapézio, supraespinhoso e epicôndilo lateral. Foram utilizadas as escalas FIQ e EVA para avaliar a intensidade da dor e a qualidade de vida dos pacientes. Utilizou-se ainda o IS (Inventario do Sono). O resultado da pesquisa demonstrou melhora da dor nos dois grupos, entretanto o grupo A apresentou melhor resultado na qualidade do sono e no grupo B houve melhora em todos os itens: cansaço matinal, ansiedade, dor, sensação de depressão. Esse resultado demonstrou que a acupuntura foi mais eficaz na resposta do tratamento quando foi realizada nos tender points.

Semer (2008) comenta que a paciente portadora de fibromialgia apresenta um sofrimento psíquico importante marcado pela tristeza e sentimento de inutilidade, e isto acontece porque a dor tem um componente físico e emocional. Ela não é sentida somente no corpo, mas estende-se também a pessoa em sua totalidade.

Silva (2007) em seu artigo comenta que “saúde é resultante da condição da existência de certo equilíbrio entre todos os sistemas internos físicos ou psíquicos… condição que levará ao sofrimento, seja ele físico ou mental.” (p.425) Comenta ainda que as emoções podem indicar a origem do desequilíbrio da energia e a Medicina Chinesa, através da acupuntura, pode ser usado como recurso para corrigir esse desequilíbrio.

Para a Medicina Ocidental a Fibromialgia é entendida como uma patologia de etiopatogenia desconhecida, entretanto, sob o olhar da Medicina Tradicional Chinesa a Fibromialgia pode ser entendida como Síndrome de Obstrução Dolorosa, podendo tratar-se de uma síndrome superficial ou de deficiência, que compromete a pele, os músculos e os meridianos nos casos agudos. Nos casos crônicos, que é o caso da fibromialgia, acabam afetando os órgãos.

Sua etiologia pode ser caracterizada por deficiência de Qi e Sangue, mucosidades nas juntas, estase de sangue e deficiência do rim e fígado. A etiopatogenia compreende tanto fatores exógenos quanto endógenos. O primeiro caracteriza-se pela invasão de vento, frio e/ou umidade e, no segundo caso, emoções como raiva, ressentimento, tristeza, pesar e trauma.

É muito comum encontrar pacientes portadores de dores crônicas, como é o caso da fibromialgia, apresentando sintomas de depressão. Esta para a Medicina Tradicional Chinesa pode acontecer em função de um quadro de deficiência do Qi e/ou do yang ou por estagnação do Qi. No primeiro caso não existe energia suficiente para manter a pessoa num estado positivo; no segundo caso existe energia, mas seu fluxo encontra-se bloqueado. (Ross, 2014)

Nos quadros de dor crônica, segundo a MTC, os principais órgãos envolvidos são o Rim e o Fígado. Nos casos de deficiência do Qi e do yang do Rim, pode gerar sintomas como exaustão, debilidade da região lombar, frio entre outros. Nos quadros por estagnação pode-se encontrar queixas de cansaço físico, mas mais por sensação do que por um fato concreto, e este pode ser aliviado pelas atividades físicas.

 Ross (2014, p.453) relata que “dor crônica, hipotireoidismo… e muitas outras condições físicas podem resultar num cansaço extremo.” Refere ainda que “a nutrição deficiente, por pobreza, ignorância ou hábitos alimentares irregulares, pode causar cansaço, já que o Baço não consegue produzir Qi e Sangue suficientes para o corpo usar ou para os Rins armazenarem.” (p.454)

A Deficiência de Qi e de Sangue acabam facilitando a invasão dos fatores patogênicos externos. A estase do sangue acontece em função da má circulação do sangue, gerando obstruções, geradas pelas mucosidades e pelos fatores patogênicos externos. A deficiência do sangue do fígado e dos rins gera má nutrição dos tendões, músculos e dos ossos levando a dor e rigidez das juntas. (Maciocia, 1996, p. 596)

Outro ponto importante a ser considerado são os fatores endógenos e conforme Sanita e Moraes descrevem: (2013, p. 9) “… trata a fibromialgia como um problema de origem emocional associado à alimentação irregular e ao esforço físico excessivo.”

Maciocia (1996) ao falar das causas internas lembra que o conceito de Qi para a Medicina Tradicional Chinesa, como energia-matéria, considera que o físico, o mental e o emocional estão totalmente interligados no homem, estando integrados em cada fenômeno que ocorre e possui grande influencia, senão a mais importante, nas desarmonias e desequilíbrios, podendo ser considerado um fator primário na causa das patologias, pois “o estado do sistema afetará as emoções e as emoções afetarão o estado do sistema” (Maciocia, 1996, p.90)

Yamamura (2004) comenta que as anormalidades do organismo acontecem em função de um desequilíbrio interno, provocado tanto pelo ambiente como pelo modo de vida, levando-se em consideração a alimentação desregrada, emoções contidas e a fadiga.

Pires et al (2014) em seus estudos explicam que o quadro clínico da fibromialgia apresenta em caráter polimorfo, variações na intensidade da dor. Comentam ainda que eventos traumáticos de ordem física e/ou emocional podem agravar e/ou desencadear o quadro de dor.

Page (2001) ao falar da fibromialgia elucida que “os sintomas são muito semelhantes ao do esgotamento” levando o individuo a um estado de exaustão, com alteração do sono, questões musculares, sensibilidade ao ambiente e outros sintomas já descritos anteriormente.

Para Page (2001, p.229) a personalidade do portador de fibromialgia parece ser de uma pessoa que se envolve demais com o desejo do outro, numa tentativa de agradar ou servir alguém que lhe seja importante ou que lhe imponha alguma autoridade. Entretanto para dar conta desta empreitada, acaba se distanciando dos próprios desejos e necessidades, afastando-se “das necessidades da própria alma”, do próprio caminho. Os sintomas, então, representam “a distância entre a energia do eu interior e a energia do eu exterior e pedem para ser reconhecidas, a fim de se poder implementar mudanças.”

Para este autor, a melhoria na qualidade de vida e dos sintomas está ao reconhecimento das próprias necessidades e do estado de doença.

Fala ainda que a energia criativa represada e não expressada, pela tentativa de agradar ao outro, acaba não sendo empregada em beneficio próprio e assim “… não conseguem exercer sua criatividade e seguir seu caminho livremente por medo de desaprovação ou de culpa de deixar os outros numa situação difícil.”

A abordagem de Page faz muito sentido ao se falar do conceito da Medicina Tradicional Chinesa de que os órgãos possuem um espírito, uma alma etérea. Assim cada órgão está relacionado a uma emoção: Raiva-figado; Alegria-coração; Tristeza-pulmão; Preocupação-baço; Medo-rim.

Para a medicina chinesa, o corpo humano possui espíritos chamados Shen, uma estrutura mental; cada órgão é habitado por um determinado espírito, dotando-o de certas qualidades energéticas. Para Medicina Tradicional Chinesa as emoções “são parte natural da existência humana” (Maciocia, 1996, p.164) tornando-se prejudicial quando em excesso ou quando são ignoradas e/ou não expressadas. As emoções podem ser a causa geradora de uma patologia, bem como ser causada por esta e para se viver em harmonia com a natureza é necessário o equilíbrio entre o yin e o yang, que representa o equilíbrio de todas as coisas.

A Medicina Tradicional Chinesa os órgãos são constituídos de uma parte com uma natureza mais material (yin), mais densa, que representa a estrutura física do órgão e uma parte imaterial (yang), de caráter energético, o Qi (yang). Quando associadas, a parte material e imaterial dão origem a um órgão energético (Zang) e a partir da interação destes, surge ainda, uma terceira Essência de origem energética, o Shen (espírito), responsável pelos fenômenos psíquicos, mental e astral. Assim, de cada órgão emana um espírito que unidos dão origem ao verdadeiro Espírito Shen.

A Medicina Tradicional Chinesa considera que as emoções se tornam motivo para preocupação quando são geradoras de patologias ou são consequência desta. As emoções podem causar doenças, pois podem provocar estímulos mentais que perturbam a mente (Shen) que reside no coração, a alma etérea (Hun) que reside no fígado e a alma corpórea (Po) que reside no pulmão, fazendo com que o equilíbrio entre os órgãos internos sejam afetados, e consequentemente, o fluxo do Qi e do sangue também. Conforme Maciocia (1996) estes são os primeiros a serem afetados pelo stress ou pelas alterações geradas pelo ambiente, pois a direção e a circulação do Qi sofrem alterações: Fúria faz o Qi ascender e afeta o fígado; a alegria faz o Qi fluir lentamente e afeta o coração; tristeza dissolve o Qi e afeta o pulmão; preocupação paralisa o Qi e afeta o baço e o medo faz o Qi descer e afeta o Rim.

De acordo com Maciocia (1996, p.50)

“… Qi é uma substância sutil (fluxo, vapor) derivada de uma substância material comum (arroz) assim como o vapor é produzido pelo arroz cozido.” Qi pode ser entendido como energia, força vital, éter, entre outros. É a “base de todos os fenômenos no universo e proporciona uma continuidade entre as formas material e dura e as energias tênues, rarefeitas e imateriais.”

Para a Medicina Tradicional Chinesa Qi é uma energia e está presente tanto física quanto espiritualmente e se manifesta de diferentes formas: Qi original, Qi dos alimentos, Qi torácico, Qi verdadeiro, Qi nutritivo e Qi defensivo. Muitos dos fatores contribuintes para a fibromialgia podem ser relacionados ao conceito de Qi, conforme diz Maciocia 1996 (p.161)

“… Qualquer desarmonia continua pode se tornar uma causa patológica. Por exemplo, muito descanso… ou muito exercício físico, muito trabalho, sexo em demasia ou mesmo a ausência deste, dieta não balanceada, vida emocional afetada, condições climáticas extremas, todos esses fatores podem ser causas de patologia.”

Milani et al (2012, p. 6) diz que dor causada pela fibromialgia gera uma importante alteração na vida do paciente gerando um grande sofrimento psíquico: “a dor é o sintoma que mais incomoda, no entanto, ela é muito subjetiva, não pode ser vista nem medida, o que tende a gerar descrédito por parte da família e demais pessoas do convívio social.”

Mendonça (2006) em sua pesquisa realizada com uma amostra de quatro pacientes do sexo feminino, com idade entre 35 e 50 anos, no período de agosto de 2005 a novembro de 2005, demonstrou uma importante melhora na qualidade de vida das pacientes submetidas ao tratamento com acupuntura. Conforme escala FIQ (Fibromyalgia Impact Questionaire) as pacientes demonstraram uma melhor capacidade para realizar as tarefas que antes eram de difícil realização em função da dor ou dos outros sintomas. Segundo a escala EVA (escala visual analógica de dor) “percebeu-se uma melhora gradual a cada semana, havendo “picos” ou recidivas, porém a dor se manifestou sempre de forma mais branda.”

Na conclusão de seu estudo, apesar de não existir referência na bibliografia quanto a eficácia da acupuntura no declínio dos sintomas depressivos, pode-se observar através da escala FIQ, que a partir da terceira semana de tratamento os sintomas depressivos foram amenizados, em função da liberação do neurotransmissor serotonina, ligado ao efeito da acupuntura.

Para a Medicina Chinesa a dor crônica, como é o caso da fibromialgia, é entendida como uma deficiência do Rim, do Fígado ou do Sangue. Tanto o Rim quanto o Fígado estão diretamente envolvidos no processo de produção do sangue.

Ross (2014) ao falar das doenças crônicas comenta que essas podem se agravar por invasão de vento, calor, umidade e frio, estresse emocional e por deficiência do Rim. Um quadro de estagnação do Qi do Fígado somado a hiperatividade do yang do Fígado em uma condição crônica pode ser agravadas pela invasão de vento ou estresse emocional levando a rigidez e dor no pescoço, contratura dos músculos dos ombros e dor de cabeça. Uma deficiência de yang do Rim favorece a invasões de vento no pescoço e retenção de frio nos músculos; a deficiência do yin do Rim pode ser associada com artrite, inflamações e sinais de calor.

O Rim é responsável por guardar a essência e representa a fonte do Qi Original: “o Fígado (Gan) e o Rim (Shen) apresentam a mesma fonte e que o Sangue (Xue) é transformado da Essência (Jing) do Rim (Shen)” (Maciocia, p.68). O Sangue, então, é formado pela interação do Qi Pós-Celestial com o Qi Pré-Celestial, um tem a origem no alimento e o outro na essência herdada pelos pais.

Sangue (Xue) para a Medicina Chinesa é entendido como algo denso e material, sendo considerada uma forma de Qi. Na verdade, é o Qi que dá movimento ao sangue. Portanto, sem a presença do Qi o sangue seria algo sem força, sem vida.

A produção do sangue acontece em função do Qi extraído dos alimentos, que após ser transformado pelo sistema Baço-Pâncreas é enviado em ascendência para o Pulmão e junto com o Qi Torácico, através da respiração, é impulsionado ao Coração onde é transformado em Sangue. Assim o sangue é produzido pelo Qi dos alimentos e levado ao Coração pela respiração. Desta forma, a principal fonte de sangue vem através dos alimentos, que são processados pelo Estômago e transformados pelo Baço-Pâncreas.

Outro fator importante relacionado com a produção do sangue para a Medicina Chinesa é que o Rim, responsável por armazenar essência, é responsável por produzir a Medula, que gera a Medula Óssea, também envolvida na produção de Sangue, conforme diz Maciocia (1996):

“Se o Qi não se exaure, envia as Essências (Jing) de volta para o Rim (Shen) para serem transformadas em Essência (Jing): se a Essência não estiver depauperada, ela retornará para o Fígado (Gan) para ser transformada em Sangue (Xue)” (p.67)

Segundo Maciocia (1996) o sangue mantém uma relação importante com o sistema baço pâncreas e com o fígado. O primeiro é responsável pela sua origem, pois o Qi dos alimentos formam a base da formação do sangue. Outra função importante do baço pâncreas é manter o sangue nos vasos, evitando que ele extravase, impedindo as hemorragias.

Sua relação com o sistema do Fígado não é menos importante porque este é responsável por armazenar o sangue do corpo. Assim enquanto a pessoa está ativa e acordada o sistema do fígado envia o sangue para os tendões e músculos mantendo-os hidratados bem como conservando os olhos umedecidos, garantindo uma boa visão.

Assim pode-se perceber a importância desses sistemas nos portadores de fibromialgia e de dor crônica, que de acordo com a medicina tradicional chinesa apresentam quadro de deficiência de sangue do fígado e dos rins, afetando diretamente os músculos, tendões e das articulações do corpo, dentre outros sintomas.

O sistema do fígado é de grande relevância para o organismo, tendo em vista sua função de armazenar o sangue, bem como ser responsável pelo fluxo suave do Qi, auxiliando assim o organismo na sua recuperação de Qi e na manutenção do sistema de defesa do organismo e no combate a invasão dos fatores patogênicos externos que contribuem de sobremaneira para os sintomas da dor crônica.

Maciocia (1996) ainda afirma sobre a importância do fluxo suave do Qi, pois este está diretamente ligado ao fluxo da vida emocional: “Se o Qi do fígado estiver contido por um longo período, nossa vida emocional será caracterizada geralmente pela depressão, frustração, irritabilidade e tensão emocional.” (p.279)

A emoção relacionada ao fígado é a raiva, mas para a medicina chinesa esta compreende também as sensações de frustração, raiva reprimida, irritação e ressentimento.

A estagnação do Qi do fígado afeta a harmonia de vários outros sistemas influenciando as funções do estômago, do baço pâncreas, da vesícula biliar, do intestino grosso e delgado e do útero. O Qi do fígado nunca se apresentará em estado de deficiência, entretanto o sangue e o yin do fígado podem ser deficientes, desta forma pode ficar estagnado, causando a coagulação do sangue. A deficiência “manifesta-se em circunstâncias patológicas com cansaço físico e debilidade ou contração dos tendões.” (p.280)

A deficiência crônica do sangue do fígado pode gerar deficiência do yin do rim, bem como, a deficiência do yin do rim pode gerar deficiência do yin de vários órgãos, como coração, fígado e pulmão. A deficiência do yin do rim favorece uma diminuição da força de vontade, gerando estados depressivos somado a um quadro de ansiedade. Ou seja, sintomas esses típicos da patologia.

Princípios Terapêuticos

Em Maciocia (1996) encontram-se as indicações abaixo como opções terapêuticas.

Para expelir os fatores patogênicos externos podem ser utilizados os pontos abaixo na terapêutica, conforme a necessidade.

  • Expelir Frio

E36, VC6, ID5, B10, VG14, VG3,B23, VC4 (moxa)

  • Expelir vento

VB20, B10, VB12, IG20

  • Tirar Umidade

E40, BP9, BP3, BP6, VC9, VC12 e B20

Como o meridiano do fígado é um dos diretamente relacionados com a dor crônica, alguns pontos da acupuntura são indicados com o objetivo de dispersar e regularizar o Qi do fígado, tais como:

Pontos:

VB34 – além das funções acima, atua diretamente no hipocôndrio

F3 – regulariza o Qi do fígado, atua também na garganta

F13 – atua no Qi do fígado, especialmente quando este afeta o Baço-Pancreas

F14 – atua no Qi do fígado, especialmente quando afeta o estomago

TA6 – atua quando afeta as laterais do corpo

PC6 – especialmente usado quando ocorre estagnação do fígado por alterações emocionais

Nos casos de estagnação do sangue do Fígado:

Pontos:

VB34 – para regularizar o Qi do fígado (antes de regularizar o sangue do F, é necessário regularizar o Qi)

F3 – regulariza o Qi e também o sangue

B18 – regulariza o Qi e também o sangue

B17 – ponto de união para o sangue

BP10 – para regularizar o sangue

VC6 – regulariza o Qi e movimenta o sangue no abdome, em casos de dor abdominal

Nos casos de deficiência de sangue do fígado pode-se utilizar:

Pontos:

F8 – para tonificar o sangue

BP6 e E36 – para tonificar o Qi pos-celestial para produção de sangue

VC4 – para tonificar sangue (utilizando-se moxa)

B20 – para tonificar o Baço para produzir sangue

B23 – para tonificar o Rim para produzir sangue

B17 – com moxa tonifica o sangue

B18 – para tonificar o sangue do fígado

Em se tratando do meridiano do Rim, nos casos de deficiência da essência, os pontos abaixo são considerados para nutrir a essência e o yin do Rim:

Pontos:

R3, R6, VC4, B23

VB39 deverá ser usado para tonificar a medula óssea

B11 para nutrir os ossos

VG20, VG14 e B15 trabalham a relação medula/cérebro

Para a nutrição do yin do Rim:

Pontos:

R9, R2, BP6, C5 e P7, P10

Para tratar a deficiência do yin do Rim e do Fígado tem-se as opções abaixo, para tonificação do Yin do rim, yin do fígado e do sangue.

Pontos:

R3, R6, F8, VC4, B23 e B20, B17 e B18, VG20

Em Ross (2014) encontramos as possibilidades de pontos, conforme finalidade terapêutica.

Para tonificar o Qi

Pontos:

VC4, E36 e BP6

Para tonificar sangue

Pontos:

E36 em combinação com IG4, BP6, BP10, B43, B17, B18, ou B20

Para fortalecer a deficiência do sangue do fígado:

Pontos:

F3 + F8 combinado com E36 e BP6

F3 + F8 combinado com VC4 e R6 se houver deficiência da essência do rim

B17, B18, B20 e B23 também podem ser utilizados

Para a estagnação do Qi do Fígado:

Pontos:

F1, VB44, VB 13, VB40 Yintang e R3

Na estagnação do Qi e do sangue

Pontos:

F1, F12, BP12, E30 e VC2

Para nutrir a deficiência de essência do Rim

Pontos:

VC4, R3, R6, VB39 e E36

Para tratar a deficiência do Qi do Rim

Pontos:

VG4, B11, B23, B52, VC4, R3

R3, P9, B13, B23, E36

Para tratar a deficiência do yin do Rim

Pontos:

VC4, E36, R6

R3, R10, BP6, C6, C3, R2

 

METODOLOGIA

Esse estudo foi elaborado baseando-se em uma revisão sistemática de literatura, realizada através das bases de pesquisas de dados Bireme, Scielo, Medline, Pubmed e Google Acadêmico, bem como, revisão bibliográfica,

O critério para base de pesquisa foi utilizar as palavras-chave fibromialgia, acupuntura e tratamento como fonte de busca para os títulos e artigos relacionados.

Foram selecionados dez artigos e utilizados seis livros, todos citados na referência bibliográfica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

          De acordo com o levantamento bibliográfico obtido para a execução desta pesquisa, foi observado que a produção científica sobre a fibromialgia e os recursos terapêuticos é razoável quando se trata da medicina ocidental, porém é escassa quando se trata de medicina oriental.

          O estudo proposto atingiu os objetivos através do levantamento de dados ressaltando a importância da acupuntura pra o alívio da dor crônica e demais sintomas da fibromialgia, utilizando pontos específicos dependendo se o desequilíbrio energético é deficiência do fígado ou rim.

          A pesquisa realizada constatou de extrema importância uma avaliação criteriosa a fim de que se possa identificar o desequilíbrio para assim traçar a conduta terapêutica com a escolha de pontos adequados para cada paciente.

Como ainda não existe grande produção de pesquisa sobre o assunto, ainda se faz necessária à continuidade desta, onde se crescerá cientificamente e assim as condutas adotadas serão melhores entendidas e aplicadas, obtendo-se melhores resultados.

Portanto, quanto mais aprofundarmos o conhecimento destes aspectos surgirão novos esclarecimentos, a fim de otimizar a intervenção terapêutica.

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