UTILIZAÇÃO DOS CANAIS JING JI NAS LESÕES ESPORTIVAS: ESTUDO DE CASO

UTILIZAÇÃO DOS CANAIS JING JI NAS LESÕES ESPORTIVAS: ESTUDO DE CASO
0 29/04/2015

UTILIZAÇÃO DOS CANAIS JING JI NAS LESÕES ESPORTIVAS: ESTUDO DE CASO

Gabriel Lima FERNANDES

Orientador: Prof. Ms. Alex da Silva Santos

Em alguns esportes o gestual repetitivo e a alta intensidade de treinos, podem enfraquecer áreas especificas musculares, tendíneas e ligamentares, causando estagnação/deficiência de Qi, Xue. O principio da medicina chinesa diz: “onde tem dor tem estagnação˜. Os Jing Ji são ramos secundários ligados aos 12 meridianos principais (MP) e circulam Wei Qi pelos tendões e músculos. O estudo é uma apresentação de um caso clinico: Atleta de remo, foi encaminhado ao setor de fisioterapia da sede náutica do C.R. Vasco da Gama, com diagnóstico clinico de tendinite patelar. Durante avaliação o atleta apresentou dor 8 numa escala de 0-10 durante o exercício de agachamento livre. Após avaliação, o Jing Ji escolhido para tratamento foi o Zu YangMing. Foi realizado o procedimento para tratamento do canal e após reavaliação o atleta relatou dor 1 na mesma escala de 0-10. Ficou clara eficácia do protocolo de utilização de tratamento utilizando os canais tendinomusculares nas lesões esportivas.

INTRODUÇÃO

O esporte de alto rendimento tem se desenvolvido muito nos últimos anos, hoje milésimos de segundos podem decidir uma prova, esse nível competitivo impõe os atletas a uma alta intensidade de treinos. Esta situação gera um alto estresse musculoesquelético o que comumente leva a lesões ou a algum tipo de queixa.

A teoria da medicina chinesa diz que o exercício excessivo pode depletar a energia geral, Qi, Xue, Yin e Yang, levando a deficiência do Wei Qi.

O Wei Qi é a energia Yang mais superficial, é a barreira protetora contra fatores patogênicos externos (FPE) e sua deficiência deixa o corpo mais suscetível a invasão dos mesmo, podendo levar a desequilíbrios dos Zang Fu, sendo esta a principal causa das lesões esportivas.

Em alguns esportes o gestual repetitivo e a alta intensidade de treinos, podem enfraquecer áreas especificas musculares, tendíneas e ligamentares, causando estagnação/deficiência de Qi, Xue. O principio da medicina chinesa diz: “onde tem dor tem estagnação”, seja de Qi ou Xue.

Primariamente em uma lesão esportiva aguda e não traumática, não precisamos nos preocupar com envolvimento de algum Zang Fu, já que são por doenças de exterior e estes não comprometem imediatamente os Zang Fu. Quando não tratados a tempo, o patógeno pode se aprofundar nas camadas do corpo, podendo então atingir as camadas mais profundas.

Devido à conexão complexa da cadeia miofascial e dos canais energéticos, quando existe alguma restrição em qualquer parte das cadeias, a coordenação do movimento fica prejudicada. Essa restrição ou resistência limita os movimentos, gerando sobrecarga nos tecidos envolvidos, sendo então, um mecanismo gerador de sintomas.

O sistema de canais foram apresentados pela primeira vez no Nei Jing durante a dinastia Han (206 A.C. – 200 D.C.), os Jing Ji, canais tendinomusculares pertencem a esse sistema. Os meridianos tendinomusculares, termo sugerido por Chambrault e Van Nghi em 1959, e as regiões cutâneas, são condutos de Wei Qi, a camada mais superficial energética do corpo, barreira protetora contra os fatores patogênicos externos (vento, umidade, calor, frio e secura).

Os Jing Ji são ramos secundários ligados aos 12 meridianos principais (MP), seus trajetos são superficiais, se localizando entre a pele e os músculos, caminhando entre os meridianos principais. Sua energia o Wei Qi, circula pelos tendões e músculos, começa nas extremidades, nos pontos Ting de cada MP que pertence. Os Jing Ji possuem função similar a do aparelho musculoesquelético na visão ocidental, manter o esqueleto unido e comandar os movimentos mioarticulares. São encontrados em áreas especificas no corpo, denominadas centro de reunião e se unem em um ponto comum, o ponto de reunião.

Os pontos de reunião dos canais tendinomusculares são 4, o ponto de reunião dos 3 yang das mãos, dos 3 yang dos pés, dos 3 yin das mãos, dos 3 yin dos pés. O ponto de reunião, faz parte do tratamento dos Jing Ji, é utilizado com o objetivo de dispersar a energia perversa, impedindo que ela penetre nos outros meridianos unidos pelo mesmo ponto de reunião correspondente.

Na medicina tradicional chinesa (MTC), a energia perversa pode estagnar ao longo desse trajeto, causando contraturas musculares, rigidez, dor difusa ou dor localizada, esses pontos dolorosos são denominados Ah Shi, na medicina ocidental, são conhecidos como Tender Points.

A teoria dos pontos Ah Shi foi desenvolvida por Sun Si Miao, durante a dinastia Tang (58-682 D.C.), dizendo que onde quer que haja dor sobre pressão (no canal ou não) há um ponto de acupuntura. Isso ocorre devido à rede de canais serem tão densa que cada área do corpo é irrigada por um canal.

O tratamento convencional ocidental das lesões musculoesqueléticas utiliza aparelhos de eletrotermofototerapia, associado a técnicas de terapia manual (manipulação, técnicas miofasciais e exercícios de fortalecimento e alongamento).

A acupuntura tem sido utilizada para o tratamento de dores crônicas e agudas de diversas origens com excelentes resultados, por isso, seu uso no tratamento das lesões esportivas vem sendo utilizado a algum tempo. A acupuntura é bem difundida no meio esportivo, sendo utilizada por atletas, profissionais e amadores, tanto no tratamento das lesões como na prevenção das mesmas e buscando otimizar a performance esportiva.

A utilização mais comum dos Canais Tendino-Muscular é tratar a dor e fatores patogênicos externos. Entretanto, o Wei Qi também está associado com processos autonômicos, involuntários, como a frequência cardíaca e a sudorese. Há um grande número de aplicações clínicas para os Canais Jing Ji, porém será abordada no estudo sua aplicação nas lesões mioarticulares.

METODOLOGIA

O estudo é uma apresentação de um caso clinico: Atleta de remo, T. 17 anos, foi encaminhado ao setor de fisioterapia da sede náutica do C.R. Vasco da Gama, no dia 13 de março de 2013, relatando dor no joelho direito durante o movimento de agachamento, com diagnóstico clinico de tendinite patelar. O movimento foi testado para ser utilizado como parâmetro de reavaliação. Durante o exame palpatório, o atleta relatou dor na região anterolateral do joelho, local do ponto Dubai E35 e no tendão patelar, sensível a palpação. O atleta relatou dor 8 durante o agachamento, em uma escala numérica de 0-10, previamente explicada, a escala varia de 0 considerado sem dor e 10 considerada uma dor insuportável. Após avaliação referente a localização da dor descrita pelo atleta, o Jing Ji escolhido para tratamento foi o Zu YangMing (meridiano do Estômago). Para o procedimento foram utilizadas agulhas chinesas da marca Qizhou 0,25X30 (individuais). Para o procedimento, foi seguido o protocolo descrito por Inada (2013):

  1. Dispersar os pontos Ah Shi;
  2. Picar o ponto Ting homolateral
  3. Tonificar MP (ponto de tonificação) homolateral;
  4. Ponto de Reunião (no caso, dos 3 Yang da Perna) homolateral.

Após os locais utilizados previamente limpos com algodão embebido em álcool, foram puncionados em dispersão os pontos Ah Shi, o ponto Dubai (E35) e um ponto localizado no tendão patelar (o ponto mais sensível encontrado na região). Em seguida foi picado o ponto Ting homolateral do canal do Estômago, o Lidui (E45), com uma agulha da marca DongBang, tamanho 0,18x08mm. Continuando o protocolo foi utilizado o ponto de tonificação do meridiano principal (estômago), o ponto Jiexi (E41) e o ponto de reunião dos 3 yangs da perna, Quanliao (ID18), todos homolaterais aos sintomas. As agulhas foram retidas por 30 minutos. Após a retiradas das agulhas, o atleta foi reavaliado. Foi pedido que o atleta realizasse novamente o agachamento e foi realizada a palpação do meridiano principal, do estômago, nas áreas relatadas sintomáticas previamente pelo atleta. O atleta relatou sentir o joelho mais leve, mais fácil de realizar o agachamento e classificou sua dor como 1 “apenas um incomodo, bem longe” na mesma escala numérica de 0-10. No dia seguinte o atleta relatou estar sem dor e o tratamento foi descontinuado.

DISCUSSÃO

Diversos estudos de acupuntura e medicina chinesa, apresentam seus resultados utilizando protocolos com pontos distais, locais, aurículo, utilizam grupos placebo. Alguns artigos apresentam resultados positivos na utilização dos pontos Ah Shi para analgesia em OA (osteoartite) de joelho, ombro, epicondilite, tratamentos pós-operatórios. Alguns protocolos enfatizam o tratamento da OA de joelho com pontos locais como o E35 e o extra equivalente Xiyan (os olhos do joelho), Baço 9 e Vb34 e alguns pontos distais como o Baço 6, Vb 39, Ig11, R3, E43, dentre outros.

Pode ser encontrado na literatura (livros e textos) diferentes abordagens para a utilização dos canais tendinomusculares, entretanto não se encontram artigos com qualidade científica publicados nos periódicos como medline, pubmed e outros, baseando seus protocolos na utilização dos canais tendinomusculares.

Existem muitos protocolos descritos referentes a utilização dos canais tendinomusculares, grandes doutrinas abordam o tema, outras nem os comentam.  Alguns tonificam o meridiano principal contralateral e utilizam o ponto de reunião também contralateral, outros utilizam pontos Yuan Fonte.

O Ling Shu, no capitulo 13, discorre sobre a localização e o tratamento dos canais Jing Ji, utilizando uma linguagem de difícil interpretação. O Nan Jing, escrito no final da dinastia Han (200 D.C.), esclareceu muito sobre a pratica da acupuntura, entretanto, nao faz menção sobre os Jing Ji.

Em 1974 um foi texto traduzido e publicado em 1981 pelo Shangai College of Traditional Medicine, este disserta sobre os Jing Ji, apresentando material explicativo e ilustrações dos trajetos dos canais tendinomusculares. Um texto mais recente, publicado na China, alega ser a primeira monografia sobre os canais secundários desde o Nei Jing, apresenta o mesmo material e ainda inclui informações sobre os Jing Ji, como recomendações de utilização dos pontos Ah Shi, bem como uma lista de pontos com efeitos benéficos aos Jing Ji.

Muitos autores comentam a relação intima sobre os meridianos tendinomusculares e o sistema musculoesqueletico. Parece ser de aceitação de todos os autores a utilização de dor e espasmo como ferramenta diagnóstica, como sugerido no Ling Shu. Todos recomendam a utilização dos Ah Shi points para tratar os Jing Ji.

O Diagnóstico dos Canais Tendino-Musculares não é classicamente associado com o pulso ou língua. Eles são canais para serem palpados.

O Ling Shu, no capitulo 7, comenta sobre a agulha aquecida para o tratamento de reumatismo. O Ling Shu recomenda para o tratamento dos Jin Ji: “ao tratar, picar com a agulha aquecida e retirar a agulha instantaneamente após a picada; o tempo da picada não e delimitado, mas deve-se parar de picar assim que a doença recrudescer; pica-se somente no local dolorido.”, sendo sugerida a utilização dos pontos Ah Shi.

Segundo Fonseca, um dos fatores de instalação dos sintomas e da patologia, é a insuficiente irrigação energético defensiva dos tendino-musculares, isso debilita a proteção oferecida pelo Wei Qi, permitindo a penetração do fatores patogênicos externos pela pele ou pelos pontos Ting. Fonseca (preconiza a utilização dos pontos Shu Antigos e dos King de ação especial, também da implantação dos pontos dolorosos (pontos Ashi) no tratamento dos tendino-musculares.

CONCLUSÃO

O tema abordado foi baseado nas experiências favoráveis com o protocolo descrito no estudo, utilizando diversas lesões musculoesqueléticas encontradas.

Entretanto, devido a dificuldade de encontrar artigos que abordem o tratamento ou que discorram sobre a existência dos canais Jing Ji (tendinomusculars), sugere-se mais pesquisas para incrementar o meio científico e corroborar os resultados aqui apresentados.

 

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