0 23/05/2018

O USO DA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA PARA O TRATAMENTO DE DESORDENS REPRODUTIVAS RELACIONADAS À INFERTILIDADE EM ÉGUAS

Autor: Aline Gomes Buarque de Holanda

 

 

RESUMO

A infertilidade consiste na incapacidade para conceber e pode ser considerada um dos mais relevantes problemas na criação de equinos, uma vez que gera prejuízos diretos no que diz respeito aos custos com tratamentos e, também, por ocasionar queda na produção. Diversos são os distúrbios que podem gerar infertilidade em éguas, incluindo desde fatores hormonais, alterações congênitas, traumas, neoplasias, até mesmo causas infecciosas ou inflamatórias, como, por exemplo, falha nos mecanismos de limpeza do útero. A Medicina Tradicional Chinesa (MTC), sobretudo a Acupuntura, tem sido amplamente utilizada com sucesso na medicina veterinária, e no que tange às desordens reprodutivas, estudos vêm sendo realizados, em diferentes espécies animais, como coadjuvante das terapias convencionais, ou mesmo para o caso da ineficiência de tais tratamentos. Nesse sentido, o presente estudo buscou realizar um levantamento bibliográfico de artigos e livros que abordassem as patologias equinas relacionadas à infertilidade, no que diz respeito às visões da medicina ocidental e da MTC, bem como aos mecanismos fisiológicos da Acupuntura, aos princípios da MTC e aos padrões relacionados, além de tratamentos já realizados utilizando-se MTC. Assim, foi possível concluir que ainda são poucos os estudos relacionados especificamente à espécie equina e que, na maioria das vezes, os tratamentos são escolhidos a partir de estudos desenvolvidos em outras espécies animais. Entretanto, quase que em sua totalidade, os resultados obtidos a partir de tratamentos realizados com diferentes recursos da MTC apresentam grande sucesso e até mesmo superioridade quando comparados aos das terapias convencionais, tanto no que diz respeito à resolução da desordem em si, quanto à capacidade de elevação das taxas de gestação, tornando-se altamente recomendada a utilização da MTC, sobretudo em conjunto com as terapias ocidentais.

Palavras-chave: acupuntura, éguas, infertilidade.

 

 

ABSTRACT

Infertility consists on inability to conceive and can be considered one of the most relevant problems in equine breeding, since it generates direct losses with treatments costs and cause production decrease. There are several disorders that can result in mares infertility, including hormonal factors, congenital abnormalities, traumas, neoplasias, even infectious or inflammatory causes, such as failure to clean the uterus. Traditional Chinese Medicine (TCM), especially Acupuncture, has been widely used in veterinary medicine and reproductive disorders studies have been carried out in different animal species, as an adjunct to conventional therapies, or even for inefficiency of such treatments. Therefore, the present study sought to carry out a bibliographical survey of articles and books dealing with equine infertility-related pathologies, regarding  Western Medicine and TCM visions, as well as Acupuncture physiological mechanisms, TCM principles and standards, and treatments already performed using TCM. Thus, we conclude that there are still few studies related specifically to the equine species and that, in most cases, the treatments are chosen from studies developed in other animal species. However, almost all of the results obtained from treatments performed with different TCM resources show great success and even superiority when compared to conventional therapies, both with respect to disorder resolution and with the pregnancy rates increase, making it highly recommended to use MTC, especially in conjunction with Western therapies.

Keywords: acupuncture, mares, infertility.

 

  1. INTRODUÇÃO

A presente revisão bibliográfica aborda as desordens reprodutivas que podem gerar diferentes graus de infertilidade em éguas, dentro das visões ocidental e da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), bem como os possíveis tratamentos já utilizados, com sucesso, pela MTC para tais distúrbios.

A infertilidade pode ser definida como a ausência de capacidade para conceber (1965) e constitui um dos mais relevantes problemas na criação de equinos. Diversas são as causas possíveis para a infertilidade nas éguas, compreendendo desde fatores hormonais, infecciosos e inflamatórios, bem como falhas na resposta imune do útero, traumas, neoplasias e alterações congênitas (EBERT e RIESE, 1986).

A equideocultura apresenta crescimento considerável nos últimos 10 anos e, em 2015, seu faturamento anual bruto foi em torno de R$ 16 bilhões de reais, sendo responsável por 600.000 empregos diretos, e aproximadamente 3.000.000 de empregos indiretos (DIAS, 2016). A infertilidade, independentemente da causa, gera prejuízos diretos a esta atividade, uma vez que aumenta os custos com tratamentos e diminui a quantidade de animais produzidos.

Para tal, foi realizado um levantamento bibliográfico de artigos e textos sobre os tratamentos da MTC para as patologias reprodutivas relacionadas à infertilidade em éguas, e, portanto, nos limitaremos a abordar apenas as desordens citadas na literatura, não sendo objetivo do presente estudo esgotar o conteúdo referente a todos os distúrbios que geram infertilidade em éguas.

  

  1. REVISÃO DE LITERATURA

2.1. Medicina Ocidental

A infertilidade pode ser definida como a ausência de capacidade para conceber (1965). Considerando as características de seleção, bem como os aspectos relacionados ao manejo reprodutivo, a espécie equina foi considerada, por longo tempo, a de menor fertilidade entre as espécies domésticas (VOSS, 1984).

Nas éguas, a infertilidade pode apresentar causas diversas, incluindo infecciosas, inflamatórias, hormonais, bem como falhas na resposta imune uterina, traumas, neoplasias e alterações congênitas (EBERT e RIESE, 1986), gerando grande impacto econômico na indústria da criação de equinos.

Para efeitos desta pesquisa, abordaremos detalhadamente apenas aquelas desordens reprodutivas em que foram encontrados relatos de tratamentos realizados utilizando-se a MTC.

 

2.1.1. ANESTRO

A égua é um animal poliéstrico sazonal, ou seja, apresenta vários estros em épocas específicas do ano. Desse modo, a estação reprodutiva ocorre nos meses de verão, e o repouso (fase anovulatória – anestro sazonal), nos meses de inverno. Nos meses intermediários (outono e primavera), ocorre o período de transição, que é caracterizado por variações na atividade ovariana e no comportamento sexual (HAFEZ e HAFEZ, 2004).

O ciclo estral é definido como o período entre dois estros e, na égua, dura em média 21 dias, sendo aproximadamente 14 dias de diestro (fase luteínica) e 7 dias de estro (cio), período em que o animal está sexualmente receptivo. Essas fases apresentam características diferentes tanto em relação a comportamento, quanto às modificações das genitálias interna e externa (HAFEZ e HAFEZ, 2004; MORAES).

O anestro pode ser definido como a falha de detecção do estro em uma fêmea, em um período previsto de acasalamento. Diversas são as causas possíveis para tal alteração, dentre as quais podemos citar: fase lútea prolongada, pseudoprenhez, estro silencioso e ninfomania comportamental (SMITH, 2006).

Para o entendimento da fase lútea prolongada, cabe ressaltar que o corpo lúteo (CL) se desenvolve a partir de um colapso no folículo ovulatório, em que sua parede interna se desdobra em pregas macro e microscópicas, que invadem a cavidade central. Na ausência de fertilização nas éguas, o CL regride em aproximadamente 14 ou 15 dias, pela ação da prostaglandina (PGF2α) do endométrio e, assim, inicia-se um novo ciclo. Entretanto, em algumas circunstâncias, o CL não é lisado, persistindo por tempo prolongado, impedindo novos ciclos, já que a progesterona (P4) circulante se mantém alta (HAFEZ e HAFEZ, 2004; SMITH, 2006).

A pseudoprenhez ocorre quando a égua perde o embrião já na presença dos cálices endometriais (35º ao 150º dia de gestação) ou quando acontece após o reconhecimento materno, mas antes do desenvolvimento dos cálices endometriais, o que resulta em vida lútea prolongada. Tal fato ocorre porque os cálices endometriais continuam secretando gonadotrofina coriônica equina (GCe) durante período similar ao de uma égua gestante e os CLs primários e secundários muitas vezes persistem, mantendo altos os níveis de P4 (SMITH, 2006).

O estro silencioso é a ausência de estro comportamental, ou seja, a égua não é capaz de demonstrar estro diante do estímulo adequado do garanhão (SMITH, 2006). Os sinais de cio característicos nas éguas incluem vulva edemaciada, com volume maior, avermelhada, úmida e brilhante; muco aquoso saindo da vagina; posição de micção, expelindo a urina em pequenas quantidades; cauda levantada; e exposição do clitóris em contrações rítmicas e prolongadas (HAFEZ e HAFEZ, 2004).

Finalmente, a ninfomania comportamental pode ser entendida como a demonstração de comportamento de estro anormal e de forma agressiva. Acredita-se que tal fato ocorra devido a uma resposta exagerada aos hormônios esteroides do ovário, embora a etiologia ainda seja desconhecida (SMITH, 2006).

 

2.1.2. ENDOMETRITE

A endometrite consiste em um processo inflamatório do endométrio, que pode ser agudo ou crônico, e resulta de uma infecção bacteriana ou de causas não infecciosas (BRINSKO et al., 2011). Esta alteração tem considerável efeito na indústria de criação de equinos, uma vez que gera grandes perdas, podendo ocorrer em até 60% das éguas inférteis (BAIN, 1966; COLLINS, 1964).

Sabe-se que a endometrite é resultante de causas multifatoriais.  As alterações do endométrio podem ser divididas em quatro classes, segundo sua etiologia e fisiopatologia: endometrite persistente pós-cobertura, endometrite infecciosa crônica, doenças sexualmente transmissíveis, e endometriose (TROEDSSON et al., 1995).

Para o entendimento da endometrite persistente pós-cobertura (EPPC), cabe destacar que, após a entrada do sêmen no ambiente uterino, seja por meio da inseminação artificial (IA) ou monta natural, ocorre um processo inflamatório no útero das éguas, que é fisiológico e transitório (KOTILAINEN et al., 1994). Essa inflamação é muito importante para a eliminação do excesso de espermatozoides e de bactérias do útero (TROEDSSON, 2006). Assim, a EPPC vai ocorrer quando esta inflamação não se resolve no tempo adequado, possibilitando o acúmulo de fluido no útero, causando uma irritação no endométrio e se tornando um ciclo vicioso (LEBLANC, 2003).

Já a endometrite infecciosa crônica ocorre, de maneira geral, em éguas que apresentam EPPC no início da estação de monta e acabam desenvolvendo uma infecção crônica no útero. Entretanto, também pode estar presente em éguas sem histórico de EPPC, mas que apresentam infecção persistente no útero (WATSON, 2000).

As doenças sexualmente transmissíveis são aquelas transmitidas do garanhão para a égua e vice-versa, por meio da monta natural. Os agentes etiológicos mais comuns envolvidos nesses quadros infecciosos são: Taylorella equigenitalis (PLATT & TAYLOR, 1982), agente causador da metrite contagiosa equina; Klebsiella pneumoniae; e Pseudomonas aeruginosa (POWELL, 1981).

Por fim, na endometriose, o endométrio sofre degenerações crônicas que geralmente são irreversíveis (KENNEY & DOIG, 1986), em função de um atraso na limpeza uterina (TROEDSSON et al., 1993), de quadros repetidos de inflamação do útero ou mesmo do próprio envelhecimento (ALLEN, 1993).

 

2.2. Neuroendocrinologia da Reprodução

O eixo hipotalâmico-hipofisário-gonadal constitui um dos principais reguladores da função gonadal e do comportamento sexual, englobando cascatas hormonais e sistemas de retroalimentação com origem no hipotálamo (SCHOEN, 2006).

Um dos hormônios do hipotálamo que regula a reprodução é o Hormônio Liberador de Gonadotrofinas (GnRH), que promove uma ligação humoral entre os sistemas endócrino e nervoso. Assim, diante de um estímulo nervoso, pulsos de GnRH são liberados na corrente sanguínea, levando à liberação, pela hipófise anterior, de dois hormônios: luteinizante (LH) e folículo-estimulante (FSH) (HAFEZ e HAFEZ, 2004).

O LH e o FSH em conjunto atuam induzindo a secreção de estrógenos do folículo desenvolvido, afetando diretamente o processo da ovulação (HAFEZ e HAFEZ, 2004), o comportamento sexual e, ainda, agindo como inibidor na produção de hormônios em excesso pelos centros cerebrais elevados (SCHOEN, 2006).

Desse modo, qualquer alteração nesta complexa cascata hormonal pode resultar em distúrbios reprodutivos e, na Medicina Ocidental, o tratamento é geralmente realizado por meio da terapia hormonal, ou pela remoção cirúrgica das gônadas, no sentido de restaurar o equilíbrio (SCHOEN, 2006).

Entretanto, o uso de altas doses de hormônios reprodutivos pode sobrecarregar o sistema, desequilibrar outros sistemas hormonais e ainda gerar esterilidade. Assim, a aplicação da MTC objetiva restabelecer o equilíbrio hormonal, de forma que os mecanismos de controle permaneçam intactos, por meio do estímulo do corpo para a sua auto-cura (SCHOEN, 2006).

 

2.3. Mecanismos Fisiológicos da Acupuntura

            Até o momento, duas teorias de mecanismos são aceitas para explicar a eficácia da Acupuntura no tratamento de desordens reprodutivas. A primeira delas demonstra, com base em estudos, que o estímulo de determinados pontos relacionados ao sistema reprodutivo por meio da Acupuntura altera a produção e liberação de hormônios sexuais, como LH, FSH, P4 e estradiol, afetando suas concentrações plasmáticas de forma significativa (LIN et al., 1988; LIN et al., 1992 apud SCHOEN, 2006; MALVEN et al., 1984).

Segundo Malven e colaboradores (1984), após a administração de naloxona (antagonista de opioide) em ovelhas adultas com concentração plasmática de P4 na fase luteal, estas apresentaram aumento significativo na concentração sérica de LH, 14 a 23 minutos após. Em contrapartida, ovelhas que não estavam na fase lútea, com baixa concentração de P4 plasmática, não apresentaram aumento de LH após a injeção de naloxona. Entretanto, o tratamento com eletroacupuntura em ovelhas na fase lútea impediu que a naloxona exógena aumentasse a LH plasmática. Já o tratamento com eletroacupuntura em ovelhas castradas diminuiu significativamente os níveis basais plasmáticos elevados de LH, enquanto que, em ovelhas não castradas, não alterou suas baixas concentrações basais de LH.

Posteriormente, Lin e colaboradores (1988), estudando porcas em anestro com ovário luteal, verificaram que três de quatro porcas tratadas com eletroacupuntura nos pontos Bai Hui e VG-2 retornaram ao estro 14 dias após, quando comparadas ao grupo controle com acupuntura – GCA (1 de 3 porcas) e grupo controle com medicamento – GCM (1 de 4 porcas). Além disso, as concentrações plasmáticas de LH diminuíram 2 horas após os tratamentos com eletroacupuntura, enquanto que no GCM houve um aumento após 10 minutos, atingindo o pico aos 20 minutos e retornando ao nível basal entre 4 a 6 horas após o tratamento. Quanto às concentrações séricas de P4, houve um aumento entre 4 a 6 horas após o tratamento com eletroacupuntura e no GCM, mas não no GCA; e o nível de estradiol não apresentou alteração significativa nos três grupos no período de 5 a 7 dias após os tratamentos.

Assim, com base no estudo citado (MALVEN et al., 1984), e também em outros (MALVEN, 1987; TRUDEAU et al., 1988), entende-se que tais alterações hormonais podem ser mediadas por endorfinas, que inibem a secreção de LH, ao passo que a naloxona pode induzir ao aumento do LH. A Acupuntura é capaz de aumentar os níveis de endorfina no cérebro, sangue e na medula espinhal (BOSSUT et al., 1986; MALVEN et al., 1984; MALVEN, 1987; apud SCHOEN, 2006). E, no caso de um desequilíbrio no eixo hipotalâmico-hipofisário-gondal, a diminuição de liberação de LH pode auxiliar no retorno ao equilíbrio, promovendo uma fase de repouso ou cessando o ciclo vicioso (LIN et al., 1992 apud SCHOEN, 2006).

Na figura a seguir, observam-se os complexos mecanismos envolvidos nos tratamentos de desordens reprodutivas por meio da Acupuntura.

 

Figura 2.2. Eixo neuroendócrino-ovariano e adrenal durante tratamento com eletroacupuntura (SCHOEN, 2006).

Legenda: – = inibição; + = estimulação; 5-HT = serotonina; A = adrenalina; ACTH = hormônio adrenocorticotrópico; CRF = hormônio liberador de corticotropina; DA = dopamina; E2 = estradiol; EA = eletroacupuntura; FSH = hormônio foliculoestimulante; GC = glicocorticoides; GnRH = hormônio liberador de gonadotrofina; LH = hormônio luteinizante; NA = noradrenalina; P4 = progesterona; POE = peptídeos opioides endógenos; PRL = prolactina.

 

A segunda teoria que justifica o efeito do tratamento com Acupuntura em problemas reprodutivos é a possível interferência desta no controle gonadal da produção de hormônios esteroides, tanto parácrino quanto autócrino, uma vez que estimula a síntese e a liberação de adrenalina, os fatores de crescimento e os catecoestrogênios (CHANG et al., 1983; BATTISTA et al., 1987; apud SCHOEN, 2006).

Estudo já demonstrou que a Acupuntura pode elevar os níveis de adrenalina no sêmen de suínos não castrados, apesar de os motivos não terem sido ainda totalmente esclarecidos (CHAN et al., 1990 apud SCHOEN, 2006).

 

2.4. Princípios da MTC

            De acordo com Xie e Preast (2011), a função reprodutiva se relaciona com os meridianos do Rim e do Fígado, e com os Vasos Extraordinários do Vaso Concepção (Ren Mai) e do Vaso Penetrador (Chong Mai).

O Rim armazena a Essência, que constitui a substância preciosa herdada dos pais e que também é abastecida pelo Qi oriundo dos alimentos, e governa o nascimento, o crescimento, a reprodução e o desenvolvimento do ser vivo. A Essência Pré-celestial controla, dentre outros, a maturação sexual, a fertilidade e a nutrição do feto, sendo ainda a base material para a produção dos espermatozoides e dos óvulos. A partir do exposto, entende-se que uma Essência debilitada e um Rim deficiente podem gerar infertilidade, impotência ou debilidade sexual (MACIOCIA, 1996).

Para Xie e Preast (2011), o Rim governa o Útero e os ovários e a Essência controla a germinação e o crescimento folicular, sendo que a ovulação é motivada pelo Qi do Rim. Este controla, também, os orifícios inferiores, cabendo destacar que o frontal inclui a uretra e o ducto espermático. O Rim regula, ainda, o “Portão da Vitalidade” (Mingmen) que, dentre outras funções, aquece a Essência e o Útero, harmonizando a função sexual (MACIOCIA, 1996).

O Fígado apresenta, dentre outras, as funções de armazenar o Sangue (Xue) e manter o fluxo suave do Qi em todo o organismo. Assim, diversas desordens ginecológicas podem ocorrer devido a alterações do Qi do Fígado ou do Sangue (MACIOCIA, 1996). O Fígado é, também, responsável pela manutenção do fluxo cíclico normal do estro e ainda envia sangue para a nutrição do Útero e de órgãos genitais (XIE e PREAST, 2011).

Desse modo, se houver deficiência de Sangue do Fígado, o estro poderá manifestar-se de forma irregular ou ausente e, no caso de apresentar estro, este poderá ser silencioso. Contrariamente, o Sangue do Fígado quente ou em excesso pode ocasionar um ciclo estral abundante e, quando estagnado, o animal poderá sentir muita dor ou desconforto (LOBO JUNIOR, 2012). O Sangue armazenado pelo Fígado também influencia os dois Vasos Maravilhosos que possuem relação íntima com o Útero (Vaso Concepção e Vaso Penetrante) (MACIOCIA, 1996).

Ambos os Vasos Concepção (VC) e Penetrador (VP) se originam no Rim, sendo que o primeiro passa pelo Útero em seu trajeto e é considerado o “mar dos meridianos Yin”, influenciando todos esses meridianos (MACIOCIA, 1996). O VC tem importante papel para o funcionamento do sistema reprodutivo, atuando sobre a fertilidade, a concepção, a gravidez e o parto, e ainda influenciando a menstruação e a menopausa em mulheres (MACIOCIA, 1996). Este vaso controla o Útero e harmoniza o Qi do trato reprodutivo, sendo utilizado no tratamento de infertilidade por favorecer o suprimento de Sangue para o Útero (MACIOCIA, 1996).

O VP é denominado de “mar dos doze meridianos”, uma vez que se ramifica em diversos vasos menores em que o Qi Defensivo circula por todo o abdômen e o tórax (MACIOCIA, 1996). Juntamente com o VC, regula o Útero e nutre o Sangue (MACIOCIA, 1996), atuando diretamente na fertilidade e no estro (XIE e PREAST, 2011).

Para outros autores (LOBO JUNIOR, 2012; SCHOEN, 2006), o Coração, o Baço e o VG também participam das funções reprodutivas. O Coração apresenta a função de governar o Sangue, fornecendo o suprimento sanguíneo adequado para todo o organismo (MACIOCIA, 1996).  Também se relaciona, de forma indireta, com a menstruação nas mulheres, visto que comanda o movimento de descida do Qi e do Sangue. Assim, na medicina veterinária, pode-se dizer que o Coração influencia a regularidade do ciclo estral, permitindo a liberação de fluxo sanguíneo durante o cio, nas espécies em que isto ocorre (LOBO JUNIOR, 2012).

O Baço é responsável por formar Qi e Sangue a partir do Qi dos alimentos (MACIOCIA, 1996). Desse modo, apresenta papel considerável na hemorragia que ocorre durante o cio, secundariamente ao Rim, dependendo da espécie (LOBO JUNIOR, 2012).

O Vaso Governador (VG), dentre outras funções, fornece Yang Qi ao Útero, regulando o ciclo estral e atuando diretamente na ovulação. Cabe ressaltar que, durante o ciclo estral, ocorrem fases em que a energia Yin encontra-se crescente e a Yang, decrescente (fase folicular), bem como fases em que a energia Yang encontra-se crescente e a Yin, decrescente (fase luteal) (LOBO JUNIOR, 2012).

Na visão da MTC, o Útero é parte integrante dos “Sistemas Yang Extraordinários”, visto que apresenta a função de um sistema Yin (armazena Essência Yin e não a excreta), porém sua forma é de um sistema Yang (oco) (MACIOCIA, 1996). O Útero regulariza a menstruação, a concepção e a gravidez (MACIOCIA, 1996), além de controlar o ciclo estral nos animais (LOBO JUNIOR, 2012). Conforme já mencionado, o Útero está diretamente relacionado ao Rim, VC e VP (MACIOCIA, 1996).

 

2.5. Principais padrões relacionados às desordens reprodutivas

 

2.5.1. DEFICIÊNCIA DE QI DO RIM

O padrão de deficiência de Qi do Rim é considerado um tipo de padrão de deficiência de Yang do Rim, sendo tratado desta forma, mesmo quando não ocorrem sintomas evidentes de Frio.  A deficiência do Yang impossibilita o aquecimento da Essência. Assim, a energia sexual não é nutrida pela Essência e nem aquecida pelo Yang do Rim, causando infertilidade feminina. Já a deficiência de Qi do Rim é caracterizada pela fragilidade de um dos “orifícios Yin inferiores” (neste caso, a uretra), não conseguindo prender a secreção vaginal, resultando em secreção vaginal crônica (MACIOCIA, 1996).

Os sinais clínicos incluem: ciclo estral irregular – anestro, diestro prolongado, folículos anovulatórios ou estro silencioso; leucorreia rala e escassa; depressão, emaciação ou constituição corporal pobre; baixa performance e fraqueza; e dorso e extremidade de membros frios. O pulso apresenta-se profundo e fraco; e a língua, pálida e com saburra fina (XIE e PREAST, 2011).

O princípio de tratamento se baseia em tonificar o Rim e aquecer o Yang. Os pontos para tratamento incluem: B-23 (Associação do Rim), VG-4, B-52, VC-4 e VC-6 (com moxa); R-7 para tonificar Yang do Rim; e R-3, para tonificar o Rim (MACIOCIA, 1996).

Xie e Preast (2011) sugerem, além de alguns destes, os pontos B-26 para tonificar Qi e fortalecer o Rim; Bai-hui, VG-3 e VG-1para aquecer o Yang e tonificar o Rim; Yan-chi para infertilidade; Shen-shu, Sheng-peng e B-24 para tonificar o Qi do Rim.

Os pontos Bai-hui, Yan-chi, Shen-shu e Sheng-peng são acupontos clássicos do equino: Bai-hui (Cem Encontros) se localiza na linha média dorsal do espaço lombossacro, entre a última vértebra lombar e a primeira sacral, e é indicado para padrão de Vento e deficiência de Yang; Shen-shu (Associação do Rim Equino) localiza-se a 2,0 cun lateral ao Bai Hui e é indicado para deficiência de Qi ou Yang do Rim; Sheng-peng (Estante do Rim) se localiza na região lombar, 2,0 cun cranial ao Shen-shu e também é indicado para deficiência de Qi ou Yang do Rim; Yan-chi (Asa do Ílio) fica localizado na região lombar caudal, a meia distância entre a tuberosidade coxal e o Sheng-peng e é indicado para infertilidade (XIE e PREAST, 2011). A localização destes pontos pode ser observada na figura a seguir.

Figura 2.3. Acupontos da região lombar e dos membros pélvicos do equino (XIE e PREAST, 2011).
Legenda: 68: Bai-hui; 69: Shen-shu; 70: Sheng-peng; 121: Yan-chi; 60: Qi-hai-shu

 

2.5.2. ESTAGNAÇÃO DE QI E/OU SANGUE DO FÍGADO

Uma vez que o Qi se encontra estagnado, o Sangue também tende a estagnar-se. Assim, o padrão de estagnação de Sangue do Fígado se origina do padrão de estagnação de Qi do Fígado e, consequentemente, resultará em estagnação do VC e VP (MACIOCIA, 1996), podendo ocasionar alterações no ciclo estral dos animais (LOBO JUNIOR, 2012).

De acordo com Xie e Preast (2011), a infertilidade nos animais pode ser causada por estes padrões associados e os sinais clínicos incluem: ciclo estral irregular – anestro, ou fase luteal encurtada; secreção vaginal espessa no estro; intolerância à pressão abdominal; e petéquias na gengiva ou embaixo da língua. O pulso apresenta-se em corda; e a língua, púrpura com saburra fina.

Além destes sinais clínicos, Lobo Junior (2012) cita, ainda, para animais de pequeno porte (cães e gatos): desconforto antes do cio; irritabilidade ou melancolia durante o cio; sangramento excessivo (estagnação de Qi do Fígado) e dor ou desconforto durante o cio; e sangramento do cio escuro ou coagulado (estagnação de Sangue do Fígado).

Maciocia (1996) não menciona propriamente a infertilidade como manifestação clínica destes padrões, mas cita: tensão, irritabilidade e distensão das mamas no período pré-menstrual; menstruação irregular e dismenorreia (estagnação de Qi do Fígado); e menstruação dolorida e irregular, com coágulos e cor escura (estagnação de Sangue do Fígado) em mulheres.

O princípio de tratamento para este padrão inclui eliminar a estagnação e movimentar o Sangue, além de regular o meridiano e aliviar a dor (XIE e PREAST, 2011). A fim de regularizar o Qi do Fígado, podem ser utilizados os pontos VB-34, F-3, F-13, F-14, TA-6 e PC-6. Para regular o Sangue, deve-se primeiro regular o Qi, podendo-se utilizar os pontos já citados – F-3, VB-34 e PC-6 -, além do B-18 (Associação do Fígado), B-17 (Influência para o Sangue) e BP-10 (MACIOCIA, 1996).

 

2.5.3. DEFICIÊNCIA DE YIN DO FÍGADO E DO RIM

O Yin do Rim é a origem do Yin de todo o organismo, sendo que alterações do Rim podem gerar desordens de outros órgãos Zang-Fu. A deficiência de Yin do Fígado pode ser causada pela deficiência de Yin do Rim e, considerando que o Fígado controla o VC e o VP – primordiais para a concepção -, ambas as deficiências podem resultar em infertilidade (XIE e PREAST, 2011).

Além disso, o Yin e o Sangue do Fígado dependem da nutrição do Yin e da Essência do Rim. Assim, a infertilidade feminina também pode ser causada pela deficiência de Sangue do Fígado, que falha na nutrição do Útero, e pela deficiência da Essência do Rim, que incapacita a concepção (MACIOCIA, 1996).

Os sinais clínicos abrangem: irregularidades no ciclo estral – anestro; falha para conceber durante muito tempo; leucorreia espessa e amarela; pálpebras inchadas e lacrimejamento quando o animal é exposto à luz; lassitude e fraqueza no dorso; surdez ou diminuição da audição; suor noturno; falta de apetite e constipação ocasional; pelagem seca ou com caspas. O pulso apresenta-se geralmente profundo, fraco e fino; e a língua, vermelha escura (XIE e PREAST, 2011).

O princípio de tratamento, neste caso, inclui nutrir o Yin do Fígado e do Rim (MACIOCIA, 1996), além de equilibrar o VC e o VP (XIE e PREAST, 2011). Para tonificar o Rim, podem ser utilizados os pontos R-3, R-6 (tonifica Yin do Rim) e VC-4 (tonifica Yin e Essência do Rim); e para tonificar Sangue do Fígado podem ser usados os acupontos B-17, B-18, B-20 (Associação do Baço), B-23, F-8 (também tonifica Yin do Fígado) (MACIOCIA, 1996).

Além de alguns destes pontos, Xie e Preast (2011) sugerem, ainda, o uso de BP-6 e R-7 para tonificar o Yin; Shen-shu, Sheng-peng e B-52 para tonificar o Rim; e Yan-chi para infertilidade.

 

2.5.4. CALOR TÓXICO (OU UMIDADE-CALOR)

O acúmulo de Calor Tóxico no Útero ou na vagina pode gerar inflamação local (endometrite ou vaginite, respectivamente) (XIE e PREAST, 2011), podendo resultar em infertilidade, conforme já mencionado.

Os sinais clínicos incluem: secreção vaginal abundante, amarela ou branco-amarelada, fétida, com textura espessa, sanguinolenta ou purulenta; prurido vaginal; urina escassa e escura; falta de apetite; febre; dor no abdômen. O pulso se apresenta rápido e forte; e a língua, vermelha com saburra espessa ou pegajosa (XIE e PREAST, 2011).

O princípio de tratamento se baseia em eliminar o Calor e desintoxicar. Assim, podem ser utilizados os pontos IG-4, IG-11 e VG-14 para eliminar Calor; Wei-jian e Shen-tang para esfriar o Sangue e desintoxicar; BP-6, BP-9, BP-10 e B-40 a fim de eliminar Umidade-calor; F-3, B-60 e B-67 para mover o Qi e o Sangue; e VC-1, como ponto de ação local. Wei-jian e Shen-tang são acupontos clássicos do equino, sendo que o primeiro se localiza na ponta da cauda e é indicado nos casos de Vento-calor e Calor Tóxico, enquanto que o segundo se localiza na porção medial do membro pélvico, na veia safena, 4 cun distal à dobra de pele da coxa, e tem como indicação condições de excesso no quadril e na área lombar (XIE e PREAST, 2011).

 

2.5.5. DEFICIÊNCIA DE QI DO BAÇO-RIM

Uma vez que o Qi do Baço e do Rim se encontra deficiente, podem ocorrer falhas no transporte e no metabolismo das águas, fazendo com que estas fluam em descendência para o Útero, resultando em endometrite ou vaginite (XIE e PREAST, 2011).

Este padrão inclui sinais clínicos tais como: anestro, estro atrasado ou infertilidade; fadiga ou edema de membros; falta de apetite; fezes amolecidas; fraqueza dos membros pélvicos e da porção dorsal; secreção vaginal crônica, de quantidade moderada, sem odor fétido, branca ou amarela, de textura fina (XIE e PREAST, 2011).

O princípio de tratamento se baseia em tonificar o Baço e aquecer o Rim, além de aliviar a secreção vaginal e eliminar a Umidade. Desse modo, podem ser utilizados os pontos: B-20, B-21 (Associação do Estômago), E-36 e Qi-hai-shu para tonificar Qi do Baço; B-26, Bai-hui e VG-4 para tonificar Qi e aquecer o Rim; E-40, BP-6 e BP-9 para eliminar Umidade e transformar a Fleuma; e VC-1, como ponto local. O ponto Qi-hai-shu é um acuponto clássico equino, localizado entre os músculos longissimus dorsi e iliocostalis, na altura do 16º espaço intercostal (Figura 2.3) e é indicado para os casos de deficiência de Qi.

 

2.6. Tratamentos com Acupuntura para subfertilidade ou infertilidade em éguas

            Em medicina veterinária, a MTC possibilita a utilização de diferentes recursos para o estímulo dos acupontos, além da Acupuntura propriamente dita, como, por exemplo, a eletroacupuntura, a moxabustão, a aquapuntura, o implante de sutura e a laserpuntura. A aquapuntura consiste na aplicação de líquido, geralmente vitamina B12 ou de complexo B, nos pontos de Acupuntura; e o implante de sutura possibilita o prolongamento do estímulo por até 14 dias, sendo recomendado o uso de categute 2-0 ou sutura sintética absorvível (SCHOEN, 2006).

            Em 1987, Hao desenvolveu um estudo com 114 éguas adultas, das quais 18 foram diagnosticadas como inférteis, após a cobertura, por meio da palpação transretal. Destas, 13 éguas receberam tratamentos: três apresentaram atrofia ou ausência de desenvolvimento dos folículos, sendo tratadas pelo ponto Yan-chi; três, ovários quiescentes no pós-parto, e foram tratadas pelo ponto Youquan; quatro, falha ou atraso na ovulação, recebendo tratamento no ponto Luanchoshu; e três apresentaram endometrite, sendo tratadas pelos pontos Bai-hui e Luanchoshu. O ponto Youquan se localiza adjacente ao aspecto cranial da articulação do quadril e ventral ao flanco superior; o Luanchoshu localiza-se no ponto médio de uma linha a partir da articulação do quadril, até o ponto médio do espaço lombossacro.

Tais pontos foram estimulados por eletroacupuntura durante 15 a 20 minutos, a cada dois dias, totalizando três ou quatro sessões. Após o tratamento, as éguas voltaram a ciclar e a ovular normalmente, sendo submetidas à cobertura natural, tornando-se gestantes em alguns casos; somente uma égua não foi considerada curada (HAO, 1987).

Posteriormente, Araújo e Araújo (2010) estudaram o efeito do tratamento com Acupuntura em 64 éguas que apresentaram dificuldade para emprenhar ou manter a gestação nas duas estações de monta anteriores, tendo sido descartadas alterações reprodutivas infecciosas ou morfológicas. Foram identificadas, nesses animais, três síndromes com base em oito princípios, pulso e língua: Deficiência de Sangue, Umidade no Aquecedor Inferior e Estagnação de Qi.

Os pontos comuns usados nos três padrões citados foram Yintang, R-3, E-36, VC-4, VG-4, B-18 e B-47. Nos casos em que foi diagnosticada a Deficiência de Sangue, foram utilizados os pontos F-8, VB-34, R-6 e B-20; para o padrão de Umidade no Aquecedor Inferior, os pontos TA-5 e BP-9; e para a Estagnação de Qi, os pontos F-3, ID-3 e F-14. Os tratamentos eram realizados semanalmente, totalizando 20 sessões; e, no grupo controle, as éguas eram punturadas em locais onde não havia pontos de Acupuntura. Em seguida, todas eram inseminadas; após 15 dias, realizava-se o diagnóstico de gestação (ARAÚJO E ARAÚJO, 2010).

Como resultado, observou-se que 77,41% das éguas tratadas tornaram-se gestantes, enquanto apenas 35,48% das éguas do grupo controle emprenharam. No grupo tratado, 45,83% emprenharam no primeiro cio após o início do tratamento; 33,33% após o segundo cio; e 25% após o terceiro cio. Já no grupo controle, nenhuma égua emprenhou no primeiro cio; 45,45% emprenharam após o segundo cio; e 54,54% após o terceiro cio. Desse modo, os autores concluíram que a Acupuntura influenciou positivamente os índices reprodutivos do plantel nas condições estudadas, demonstrando a eficácia do tratamento para infertilidade sem causa aparente (ARAÚJO E ARAÚJO, 2010).

 

2.7. Tratamentos com Acupuntura para desordens reprodutivas específicas em éguas

2.7.1. ANESTRO OU CICLO ESTRAL IRREGULAR

Em um estudo com éguas Puro-Sangue Inglês que apresentaram retardo no surgimento do estro na estação de monta, foi realizada a aplicação de eletroacupuntura (10 Hz por 10 minutos) nos pontos B-23 e Bai-hui, uma vez por semana, durante duas semanas. O surgimento do estro ocorreu em um tempo médio de 13,66 ± 9,21 dias após a primeira sessão de Acupuntura; a duração média do estro no grupo tratado (GT) foi de 5,11 ± 2,4 dias, enquanto no grupo controle (GC), de 7,2 ± 2,91 dias. No GT, a taxa de prenhez à primeira cobertura foi de 88,88%, enquanto que, no GC, de 58,33%. Considerando todas as coberturas, a taxa de prenhez permaneceu a mesma no GT; no GC, elevou-se para 83,33%. Assim, o estudo concluiu que a estimulação daqueles pontos pela Acupuntura foi eficiente na indução do estro, sendo uma alternativa no auxílio do tratamento de éguas com ausência de estro no início da estação de monta (COSTA et al., 2000).

Niemantsverdriet-murton e colaboradores (2011) estudaram o efeito da Acupuntura na indução de ciclicidade em éguas em anestro. No primeiro experimento, as éguas em anestro foram tratadas com Acupuntura nos pontos Bai-hui, VG-2, B-22, B-23, B-31 e B-33, duas vezes na semana, durante três semanas; e posteriormente, uma vez na semana, durante 8 semanas. No experimento 2, as éguas foram estimuladas nos pontos Bai-hui, VG-1, B-22, B-23 e B-28, com eletroacupuntura (50 Hz por 10 minutos) em B-22 e B-28, bilateralmente. Também foi realizada a administração de vitamina B12 ao redor da cérvix. Entretanto, não foram encontradas diferenças significativas no tempo médio para a ovulação em éguas nos grupos tratado e controle. Cabe ressaltar que, no experimento 1, duas das seis éguas tratadas ovularam antes do que qualquer égua do grupo controle. Na figura a seguir, pode ser observada a maioria dos pontos utilizados nos estudos citados.

Figura 2.4. Acupontos utilizados nos estudos citados (NIEMANTSVERDRIET-MURTON et al., 2011).

Legenda: GV = VG; BL = B

 

Com base em experimentos desenvolvidos com outras espécies, Schoen (2006) sugeriu o uso dos acupontos Bai-hui, VG-1, VG-2, B-23, B-25 e Yan-chi para o tratamento de anestro, além dos pontos associados VG-4 e VC-4. Neste caso, podem ser realizadas, duas vezes por semana: a tonificação dos pontos citados com inserção simples de agulha; a eletroestimulação em Bai-hui e VG-2; a aquapuntura em B-23 e B-25. Pode-se, ainda, utilizar o implante de sutura para prolongar o estímulo.

Nos casos específicos de corpo lúteo cístico ou retido, estro silencioso ou pseudoprenhez que, conforme mencionado, pode resultar em anestro, Schoen (2006) recomenda, com base em estudo com vacas, o uso de aquapuntura em B-23 e B-25 e, adicionalmente, terapia com prostaglandina para corpo lúteo cístico ou retido. Outra possibilidade é a eletroacupuntura em Bai-hui, VG-1 ou VC-1, bem como o uso do BP-6 em combinação com B-22 ou B-23, para tratar cio silencioso e pseudoprenhez em animais de produção. Entretanto, até o momento, não foram encontrados, na literatura, estudos de tratamentos de Acupuntura desenvolvidos com éguas nessas desordens especificamente.

 

2.7.2. ENDOMETRITE

Um estudo retrospectivo utilizando 44 éguas com histórico de fluido uterino e/ou coleção de urina demonstrou significante resolução do fluido no dia seguinte ao tratamento com Acupuntura, verificado por meio de ultrassonografia transretal, bem como uma taxa de prenhez de 81%. O tratamento com Acupuntura iniciou-se após a ineficiência dos tratamentos convencionais, sendo realizado simultaneamente com estes tratamentos (ocitocina, lavagem uterina, infusão de antibiótico). Entretanto, tal experimento não contemplou um grupo controle positivo (RATHGEBER, 2000 apud SCHOFIELD, 2008).

Em estudo posterior, foram avaliadas, em éguas, a quantidade e a característica do fluido uterino produzido 24 horas após a inseminação artificial com sêmen fresco. As que apresentavam sinais ultrassonográficos de endometrite persistente pós-cobertura foram tratadas com ocitocina (n=25), Acupuntura (n=21) ou placebo (n=13). O tratamento com Acupuntura foi realizado utilizando-se um protocolo padrão para todas as éguas com os acupontos R-3, Bai-hui (Acupuntura e moxabustão) e B-30 (Associação do Anel Branco), este último localizado entre S4-S5, 3 cun lateral à linha média dorsal, com ação direta na estimulação da cérvix e do útero, beneficiando a eliminação do fluido.  Outros pontos foram utilizados de acordo com cada caso, como por exemplo B-1, B-17 (Associação do Diafragma), B-20, B-22 (Associação do Triplo Aquecedor), B-23, B-26, B-35, B-51, PC-6, E-36, BP-4, BP-9, VC-4 e VG-4 (PO et al., 2012).

Os resultados obtidos neste estudo demonstraram uma redução na quantidade do fluido uterino nas éguas de todos os grupos. Porém, as do grupo ocitocina apresentaram uma redução maior do que as do grupo placebo (P<0,01); e as do grupo Acupuntura exibiram uma redução maior do que as dos grupos ocitocina e placebo (P<0,01). Adicionalmente, as éguas tratadas com Acupuntura e ocitocina apresentaram maiores taxas de prenhez quando comparadas às do grupo placebo, mas as éguas tratadas com Acupuntura demonstraram taxas significativamente maiores em comparação com as tratadas com ocitocina (76,2% e 20%, respectivamente). Desse modo, concluiu-se que a Acupuntura foi mais eficiente na redução do fluido do útero e na elevação da taxa de prenhez, quando comparada aos resultados obtidos nos outros grupos (PO et al., 2012).

Conforme já mencionado, a endometrite é a inflamação do endométrio. Assim, Schoen (2006) relembra que, apesar de alguns pontos como IG-4, IG-11, E-36, VG-14, F-3, VB-39, B-20, B-43, dentre outros, apresentarem ação anti-inflamatória e estimulante do sistema imune em humanos, nos animais os acupontos B-20 e E-36 são os mais utilizados para quadros inflamatórios gerais. Entretanto, B-23, B-25 e VC-1 são recomendados especificamente para o tratamento de inflamação de órgãos reprodutivos, podendo ainda ser realizado com eletroacupuntura ou aquapuntura. No caso de endometrite infecciosa, também deve ser ministrado o tratamento com antibióticos.

 

  1. CONCLUSÃO

     A partir do exposto, conclui-se que vários estudos já foram desenvolvidos, em diversas espécies animais, no que diz respeito aos tratamentos com Acupuntura e com outros recursos da Medicina Tradicional Chinesa para desordens reprodutivas que podem resultar em diferentes graus de infertilidade.

Entretanto, especificamente na espécie equina, tais estudos até o momento são bastante escassos, sendo na maioria das vezes realizados tratamentos originalmente desenvolvidos com outras espécies de animais de produção; ou experimentos sem a existência de grupo controle para garantir a confiabilidade da pesquisa. Tais constatações demonstram existir, ainda, a necessidade de desenvolvimento de novos estudos acerca do assunto relativamente a equinos.

Mesmo assim, os resultados obtidos com equinos, a partir de tratamentos utilizando recursos da MTC, apresentam sucesso e superioridade em relação às terapias convencionais quase que em sua totalidade, tanto no que diz respeito à resolução da desordem reprodutiva em si, quanto na capacidade de elevação das taxas de gestação, tornando-se altamente recomendada a sua utilização, principalmente em conjunto com as terapias convencionais.

 

 

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