TRANSTORNO DEPRESSIVO: A CRISE DA CONTEMPORANEIDADE E O TRATAMENTO PELA ACUPUNTURA NA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA

TRANSTORNO DEPRESSIVO: A CRISE DA CONTEMPORANEIDADE E O TRATAMENTO PELA ACUPUNTURA NA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA
0 17/08/2017

TRANSTORNO DEPRESSIVO: A CRISE DA CONTEMPORANEIDADE E O TRATAMENTO PELA ACUPUNTURA NA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA

Autor: Gabriel Gonçalves Serafim Silva

 

RESUMO

Este artigo visa realizar uma pesquisa bibliográfica a respeito do Transtorno Depressivo na contemporaneidade, visto pela abordagem epistemológica da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), especificamente na utilização da Acupuntura. Para tanto, serão realizadas discussões teóricas sobre como as práticas clínicas da Acupuntura podem ser benéficas na atual conjuntura histórica, política e cultural. Neste sentido, torna-se necessário realizar uma problematização sobre a visão de mundo hegemônica no modelo social capitalista, cujos efeitos podemos citar o aumento da população que sofre atualmente com a depressão. Após este percurso, serão analisadas as bases cosmológicas e filosóficas orientais da MTC, discutindo a importância da anamnese e avaliação energética acerca da desarmonia em questão, apontando e avaliando os sinais e sintomas dos padrões relacionados, os principais meridianos e sistemas afetados, além da proposição de um plano de intervenção com a indicação de pontos em acupuntura.

Palavras-chave: Depressão, Acupuntura, Medicina, Chinesa, Contemporaneidade.

ABSTRACT

               This article aims to conduct a literature research regarding depressive disorder nowadays, since the epistemological approach of Traditional Chinese Medicine (TCM), specifically in the use of acupuncture. Therefore, it will be held theoretical discussions about how the clinical practice of acupuncture can be beneficial in the current historical conjuncture, political and cultural. In this way, it is necessary to hold a questioning about the  hegemonic world vision in the capitalist social model, wich the effects of it we can mention the increase of the population currently suffering from depression disorder. Following this route, the Eastern cosmological and philosophical foundations of TCM will be analyzed, discussing the importance of anamnesis and energy assessment on the disharmony in question, pointing and evaluating signs and symptoms of the related standards, the main meridians and the systems affected, besides the proposition of an intervention plan indicating the points in acupuncture.

Key words: Depression disorder, Acupuncture, Medicine, Chinese, Contemporaneity.

 

INTRODUÇÃO

 A subjetividade e as produções existenciais na contemporaneidade capitalística estão em crise, afetando e produzindo modelos de vida adoecidos, uma espécie de peste emocional, conceito do psicanalista Wilhelm Reich para designar a diminuição e o bloqueio constante das capacidades autorreguladoras naturais da vida individual e coletiva, gerando efeitos nefastos para o organismo como um todo (REICH, 1998. Pag 461).

Desta maneira, ao estudarmos o transtorno depressivo no contemporâneo, apostamos que a base epistemológica da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), especificamente na utilização da Acupuntura, oferece uma visão de mundo que se orienta pela unidade e integridade dinâmica da vida, de forma a estabelecer diferentes apostas clínicas com relação à visão ocidental sobre este tema.  Porém, ao discutir o tema nesta perspectiva, não pretendemos realizar uma exegese – um compêndio geral – sobre as teorias de base, meridianos, etiopatogenia e práticas de exame da MTC, pois acreditamos que estes já são amplamente discutidos na literatura clássica. Sendo assim, abordaremos a teoria de maneira a utilizá-la quando os conceitos forem necessários para a discussão do tema.

Além disso, será possível discutir o tema da Depressão sem aproximar a clínica da política? Mais concretamente, o que pensar sobre as produções existenciais – corpo, saúde, sujeito e depressão – no atual modelo capitalista? Isso nos convoca necessariamente a discutir o que entendemos por contemporâneo.

Como exemplo, pensemos na forma verbal do gerúndio – anunciando – uma ação em curso ou uma ação simultânea a outra como expressão da linguagem no presente. Neste sentido, na contemporaneidade existe esta relação paradoxal – inantecipável – do tempo presente, permitindo o deslocamento de onde estávamos, entre o passado e o futuro (PASSOS, 2001).

Neste sentido, procuramos esboçar que a contemporaneidade vive um aspecto macropolítico denominado por Guattari (2010) de Capitalismo Mundial Integrado (CMI), modelo econômico, social e cultural que não admite exterioridade na expressão da vida, aumentando sempre suas determinações de condutas (consumo, hábitos, opiniões, estética, orientação sexual, saúde) e ameaçando todas as forças criativas e plurais nos campos existenciais; a tendência é desterritorializar as singularidades e normatizar tudo, tanto pela exploração e controle nos planos econômicos e sociais, como nas produções afetivas e emocionais da subjetividade. O CMI produz uma subjetividade “serializada, normalizada, centrada em torno de uma imagem, de um consenso subjetivo referido e sobrecodificado por uma lei transcendental” (GUATARRI, 2010, pag. 49).

Nas produções e análises teóricas e práticas sobre a saúde na atualidade, entendemos que as hegemônicas concepções de Doença, Corpo e Sujeito carecem de novos paradigmas, novas fusões no conteúdo sobre as redes conectivas que atravessam os indivíduos, as coletividades e a natureza do vivo em seus diferentes modos e atributos. Ao realizar uma discussão sobre as abordagens referentes à saúde do corpo, Canguilhem (2002, pag.36) vai apontar como os filósofos da época clássica e no século das luzes pensaram, não raramente, esta temática como oposição à doença, sendo apenas o funcionamento silencioso do corpo biológico quase sempre sinônimo de saúde, desconsiderando os sinais e sintomas psíquicos, emocionais e energéticos envolvidos.

Isso nos faz alertar, gerando a seguinte pergunta: o que a medicina tradicional consolidada no ocidente tem produzido? Especificamente quando o tema perpassa as áreas da Psiquiatria e do sofrimento psíquico, temos indícios de uma utilização indiscriminada de psicofármacos, além de não ter em suas bases filosóficas e científicas uma visão sistêmica, causando nos sujeitos medicalizados, devastações na flora intestinal e baixa considerável no sistema imune, gerando efeitos contrários nas pessoas que buscam cuidado e tratamento (COELHO, 2012, pag.23).

 Então supomos, se a discussão sobre os transtornos depressivos está emaranhada em um modelo de pensamento e práticas sociais que produzem subjetividades adoecidas, infelizes e sem expressividade vital, torna-se um desafio necessário pensarmos outros paradigmas, referenciais, estilo de vida e mesmo para recorrermos a tratamentos em saúde que levem em consideração a integralidade do sujeito doente.

Em contrapartida ao paradigma hegemônico no ocidente, Caleri (2013, pag.17) aponta que a Medicina Tradicional Chinesa aborda as manifestações do ser entendidas como saúde/doença, não como entidades separadas, mas como alternâncias paradoxalmente entrelaçadas dos “aspectos mais Yin e mais Yang, constitutivos de mundo e humano”. Visto nesta perspectiva, falamos de uma saúde decorrente da harmonização entre polaridades não antagônicas, pelo contrário, são complementares. Assim, na utilização da Acupuntura, a relação do macrocosmo com o microcosmo é fundante, estabelecendo pela pele, o contato e a ligação energética entre a realidade interna e externa, as forças do homem às forças do universo, conseguindo captar e mobilizar a energia vital presente em todas as coisas que é chamada de prana pelos indianos, baraka pelos árabes, Qi pelos chineses e orgone pelo cientista Whilhelm Reich (FREIRE, 2006, pag. 57): como abordaremos a temática pela tradição da MTC, convencionaremos utilizar a nomenclatura Qi, para conceituar esta energia.

UMA PERSPECTIVA DE SAÚDE HOLÍSTICA

Entendemos que as práticas clínicas são indissociáveis das perspectivas éticas, estéticas e políticas, portanto, consideramos que a Acupuntura oferece uma importante perspectiva holística, reconhecendo a unidade dinâmica da vida, tal como nos princípios taoístas que podemos acompanhar nesta passagem:

Por isso, os antigos mestre taoístas não faziam a separação entre a ciência, a filosofia, a religião e os demais elementos. A compreensão de não dividir, de saber e tentar sentir todas as coisas como uma só e vivê-las sem conflitos entre si é um dos propósitos dos mestres. Essa é uma das maneiras de viver há muito propostas pelos mestres taoístas. E é bastante possível, bem razoável!  (CHERNG, 2010, pag. 10)

Neste sentido, a Acupuntura é um sistema e modelo de saúde que reconhece o indivíduo, as coletividades e a natureza em sua indivisibilidade. Para Kidson (2006), esta prática terapêutica vem sendo usada ao longo dos séculos pelos chineses, e como dito anteriormente, se caracteriza pela condição de medicina holística, radicalizando a expressão “abarcar o todo”. Deste modo, os princípios e as bases teóricas desta medicina se orientam na perspectiva de enxergar a pessoa doente e não a doença, mesmo porque a doença só existe na relação e no contexto que a pessoa estabelece com a vida, seja no trabalho, na história familiar, no uso dos prazeres e também no modo como se alimenta. Sendo assim, o mais importante nesta prática é fortalecer e harmonizar a pessoa que busca o tratamento, acreditando que a sua história carrega uma individualidade original. Ao profissional, não cabe estabelecer protocolos genéricos, mesmo que alguns sinais e sintomas sejam comuns em uma sociedade.

 Fazendo uma aproximação com o pensamento filosófico de Nietzsche, recorro às palavras de Martins (2011) para utilizar três conceitos do autor: vontade de potência, grande saúde e a figura do convalescente. Estes conceitos falam de um corpo e saúde que não estão ausentes de doenças, em estado de pleno bem estar; pelo contrário, trata-se de um corpo como multiplicidade de forças e afetos que empreende uma busca contínua para passar de um estado de menor potência para um estado de maior potência para a vida.  Ou seja, a filosofia de Nietzsche faz uma crítica radical ao pensamento dualista ocidental que separa a existência em oposições absolutas; podemos exemplificar esta crítica com uma característica bem comum em nossa cultura em opor saúde e doença, emoção e razão, belo e feio, homem e natureza, matéria e espírito, não acolhendo o paradoxo e a complementaridade que integram as oposições.

Em consonância com o pensamento taoísta e o modelo da MTC, também podemos trazer uma noção da filosofia do pré-socrático Heráclito de Éfeso:

Toda realidade é fundada no devir. O conflito dos contrários é a essência das coisas que são (existem). Tudo que existe é síntese dos contrários, porque a guerra é, ao mesmo tempo, harmonia e paz. Os opostos coincidem. Os contrários são uma só e mesmoa coisa, assim como o uno e o múltiplo. (SANTOS, 2011, pag.91).

Isso sugere, portanto, na linguagem da Medina Chinesa que “não há nada que seja apenas Yin ou Yáng [sic], negro ou branco, feminino ou masculino, magnético ou elétrico, passivo ou ativo, bom ou mau, escuro ou claro” (ECKERT, 2011, pag. 16). Logo, ao realizar estas incursões e aproximações filosóficas, este artigo busca na MTC e no pensamento taoísta um aporte reflexivo e ético que reconheça a unidade da vida ao abordarmos o tema da depressão, entendendo que esta patologia é uma condição transitória – cronificada/grave ou moderada – de um corpo em desarmonia energética, podendo assim, reestabelecer sua vitalidade se o tratamento oferecer uma avaliação diagnóstica e intervenção terapêutica correta e eficiente, juntamente à implicação ativa da pessoa na mudança de hábitos que agravaram a desarmonia em questão.

Desta maneira, a Acupuntura busca uma intervenção orientada por uma perspectiva vitalista, onde “são realizados estímulos no organismo para que esse retome sua mais ampla capacidade de produção, e busque seu caminho de autorregulação” (CALERI, 2013, pag. 42).

Neste tópico, lançamos mão do pensamento filosófico ocidental que consideramos ter aproximações com a Medicina Tradicional Chinesa e o Taoísmo, para contextualizar um modelo de saúde e pensamento que oferecem saídas aos (des)caminhos da subjetividade na contemporaneidade, acometida pelos transtornos depressivos. Sendo assim, a prática da Acupuntura aqui será abordada em contraposição a uma biomedicina hegemônica praticada atualmente, que segundo Caleri (2013, pag. 44), é marcada por um estilo de tratamento agressivo e invasivo que suprime os sintomas a qualquer custo, ao invés de observá-los para compreender o mundo e o humano.

Em síntese, o presente estudo também pretende responder a outra pergunta: como a Acupuntura se instrumentaliza e incide no diagnóstico e no tratamento da pessoa que está deprimida? Nossa aposta é que o paradigma da Medicina Tradicional Chinesa tem gerado benefícios incomensuráveis e reduzido os danos causados peça depressão, transtorno tão investigado pelas ciências biomédicas, psiquiátricas e psicoterápicas, no campo da saúde mental e emocional.

 

DEPRESSÃO: PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES CLÍNICAS

Frequentemente o fenômeno da depressão é abordado pelo viés da tradição psiquiátrica ocidental, vejamos o exemplo do Transtorno Depressivo Recorrente, conforme é apresentado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV): trata-se de um transtorno caracterizado pela ocorrência repetida de episódios depressivos. Diz-se que nas formas mais graves do transtorno depressivo recorrente, são apresentados numerosos pontos comuns com a depressão maníaco-depressiva e a melancolia, por exemplo.

Segundo o DSM-IV, os primeiros episódios podem ocorrer em qualquer idade, da infância à senilidade, sendo que o início pode ser agudo ou insidioso e também pode variar de algumas semanas a alguns meses. Fala-se ainda que o risco de ocorrência de um episódio maníaco não pode jamais ser completamente descartado em uma pessoa com um transtorno depressivo recorrente, qualquer que seja o número de episódios depressivos apresentados.

            Os Transtornos Depressivos se tornaram um grave problema epidemiológico no século XXI, segundo dados da Organização Mundial da Sáude (OMS), a depressão ocupa o segundo lugar das doenças mentais prevalecentes no mundo (CECHINATO; NOVARETTI, 2002 apud. PAIVA, 2011). Porém, nem sempre a tristeza, apatia, desolação, melancolia entre outros sintomas característicos deste transtorno, foram colocados no estatuto científico e psicopatológico de doença mental. Nas palavras de ²Roudinesco (1997 apud. ESTEVES; GALVAN, 2006, pag.128), apenas no século XIX a melancolia vai se consolidar como o grande sintoma da modernidade.

Para Esteves e Galvan (2006), os sintomas que hoje classificamos como Depressão são apresentados desde a antiguidade, principalmente em histórias de personagens atormentados em suas jornadas existenciais, demonstrando sentimentos de fraqueza e culpa, por vezes culminando em desfechos fatais. Porém, segundo os autores, este transtorno é tratado como doença pela sociedade moderna, podendo apresentar um quadro clínico de “uma patologia grave ou ser apenas mais um sintoma do sujeito diante de uma situação real de vida” (ESTEVES; GALVAN, 2006, pag. 127).

Visto por uma ótica biomédica ocidental é bastante comum protocolar a Depressão com estas características clinicas: doença crônica e não transmissível, podendo apresentar prejuízos físicos, emocionais e mentais, desencadeada em pessoas em estados atípicos e recorrentes de tristeza. Ocorrendo também limitações nas atividades funcionais de sociabilidades como trabalho, relações familiares, sexuais e afetivas; diminuindo o sentimento de bem-estar e comprometendo a qualidade de vida (SILVA, 2010, pag. 10).

Apresentado este modelo diagnóstico e sintomatológico do Transtorno Depressivo, agora iremos abordá-lo a partir da Medicina Tradicional Chinesa, alinhavando a etiopatogenia com os padrões energéticos apresentados, considerando os sinais e os sintomas característicos da pessoa depressiva. Além disso, faremos a indicação de pontos em Acupuntura que podem auxiliar neste tratamento.

  A MEDICINA TRADICIONAL CHINESA NO TRATAMENTO DA DEPRESSÃO:

Nas palavras de Fulder (1980), a depressão é como a imagem de um pântano, em suas margens alagadas está o caminho da frustração, decepção e fracassos; diminuindo a perseverança na existência, a força de vontade, atrofia-se também os recursos internos para a capacidade de produção energética. Trazendo a máxima do pensamento taoísta e dos princípios biológicos que nada é fixo, se a energia não pode ser expressada ou utilizada, a própria fonte irá secar. Neste sentido, seguem as palavras do autor:

A falta de vontade esgota a vitalidade e tem um efeito tão debilitador sobre suprimento de energia primária, que leva à redução do movimento, da expressão, da respiração, do apetite, da absorção de oxigênio, do metabolismo, provoca o cansaço e a frouxidão dos músculos e, às vezes, a doença (FULDER, 1980, pag. 252).

Para Maciocia (2007, pag.82), a teoria dos Órgãos Internos na MTC, melhor ilustra o centro da teoria médica chinesa, pois expressa uma visão do organismo como um todo integrado, um cenário amplo no funcionamento das emoções, das atividades mentais, tecidos, órgãos do sentido e ambiente circundante. Enquanto a medicina ocidental entende órgão apenas em seu aspecto anatômico-material-funcional, a medicina chinesa os compreende como órgãos energéticos complexos, incluindo as forças anatômicas e seus aspectos mentais, emocionais e espirituais.

Se analisarmos a relação dos órgãos com as emoções, esta abordagem médica não focaliza apenas no aspecto mental ou nas funções cerebrais relacionadas aos adoecimentos emocionais. Ao exemplo da tristeza, fala-se de uma mútua relação dos órgãos com as emoções: “o estado do órgão afetará as emoções e as emoções afetarão o estado do órgão” (MACIOCIA, 2007, pag. 83).    Para tanto, torna-se necessário falar rapidamente sobre os sete fatores emocionais, de acordo com a MTC.

Segundo Kidson (2006), os fatores emocionais gerados no interior do organismo, podem consumir o Qi protetor, deixando a pessoa indefesa. Quando as emoções da alegria, raiva, preocupação, pensamento, medo, tristeza e pavor são muito intensas e persistentes na vida da pessoa, elas costumam danificar os órgãos internos, chegando a produzir uma doença. Podemos citar o exemplo dos cinco órgãos Yin e suas respectivas emoções acopladas: “O Coração relaciona-se à alegria, o Fígado à raiva, o Pulmão à tristeza e aflição, o Baço ao pensamento e ao estado de ficar pensativo, e o Rim ao Medo” (MACIOCIA, 2007, pag. 83).

Porém, nota-se que não há uma hierarquia entre as emoções, todas elas são importantes e compõem o funcionamento do organismo, porém, a cronificação de um estado torna-se a base do adoecimento. Novamente com o exemplo da tristeza e da melancolia, estas em excesso, estagnadas ou em deficiência, afetam o Pulmão, portanto podem interferir na respiração – problemas respiratórios em geral – incluindo sintomas de ansiedade (KIDSON, 2006).  Desta maneira, falamos que a mágoa e a tristeza tendem a esvaziar o Qi do tórax, deixando uma leve sensação de tensão no peito e falta de ar, em pessoas sujeitas a aflição crônica (MACIOCIA, 2007, pag. 114).

Neste sentido, a teoria dos Sete Sentimentos (Qi Qing), representa as modificações do espírito em relação as afetações emocionais que a pessoa vive, podendo, como discutimos, desencadear fatores patogênicos (AUTEROCHE.; NAVAILH, 1992, pag.125).

Seguindo a discussão, antes de entrarmos no diagnóstico energético para o tratamento da Depressão, faremos uma rápida incursão sobre dois aspectos da teoria de base na MTC: os Meridianos e os Cinco Agentes do Movimentos/Cinco Elementos. Neste sentido, Sidorak (1984, pag. 31) afirma que a energia vital /Qi circula através de linhas denominadas meridianos, fazendo todo o organismo comunicar entre si e com o ambiente que o circunda. Esta comunicação acontece ao nível da pele, pelos meridianos principais em seu trajeto superficial e profundamente, pelos órgãos e vísceras (Zang Fu). O trajeto dos meridianos percorrem uma rede que une as fronteiras entre “os órgãos internos à superfície do corpo, os tecidos aos órgãos sensoriais, as emoções aos pensamentos, Yin a Yáng[sic], a terra ao céu” (ECKERT, 2011, pag. 21).

A teoria dos Cinco Agentes do Movimento ou Cinco Elementos, considera que “o universo é formado pelo movimento e transformação de cinco princípios representados por: a Madeira, o Fogo, a Terra, o Metal, a Água” (AUTEROCHE e NAVAILH, 1992, pag. 23). Estes princípios têm entre eles relações constantes e são condicionados uns pelos outros, sendo cada um deles a expressão macrocósmica e microcósmica das estações do ano, do clima, das estrelas, das plantas, dos animais, dos minerais e dos humanos (ECKERT, 2011, pag. 27). Desta maneira, as características do elemento Madeira, por exemplo, são representadas pela Primavera que no sistema (Zang Fu) também rege o Fígado e a Vesícula Biliar (SIDORAK, 1984), afetando e sendo afetados por todos os outros agentes do movimento, em maior ou menor grau.

ACUPUNTURA: O DIAGNÓSTICO ENERGÉTICO, PRINCIPAIS SISTEMAS AFETADOS E A INDICAÇÃO DE PONTOS PARA O TRATAMENTO DA DEPRESSÃO

Sustentamos que a MTC é uma abordagem holística e que avalia o funcionamento da vida em todos os seus aspectos, desta maneira, uma pessoa que sofre com a Depressão terá o seu sistema orgânico prejudicado nos aspectos mentais, emocionais e físicos. Os sinais e sintomas apresentados por cada paciente, recolhidos na anamnese e observados no exame clínico (exame da língua, pulso, palpação dos meridianos, observação dos olhos, cor da pele, além da audição-olfação) são a chave-mestra para que seja realizado um bom diagnóstico e indicado um plano terapêutico.

Percebemos que há diferentes padrões relacionados ao Transtorno Depressivo, sendo três bastante comuns: desequilíbrio por deficiência de Qi do Pulmão, Estagnação de Qi do Fígado e Excesso de Fogo no Coração, acarretando desarmonia nos elementos Metal, Madeira e Fogo.

  1. CORAÇÃO

Para Maciocia (2007, pag. 201), todas as emoções afetam o Coração de alguma maneira, pois este abriga a Shen, o princípio organizador, podendo ser traduzido por Mente ou Espírito. As funções do Coração orientadas pelo Shen, “são de clarear a consciência para a realização do caminhar (individual e coletivo)” (CALERI, 2013, pag. 126).  Assim, se o Coração estiver forte, a Mente também estará fortalecida junto à sensação de estar contente, pelo contrário, se estiver fraco, faltará vitalidade à Mente e a pessoa ficará mais propícia à tristeza e a depressão. Um coração em condição de excesso torna-se bastante prejudicial, apresentando indícios de doença mental característicos dos sintomas maníaco-depressivos. Trata-se de um Shen não ancorado em sua residência (MACIOCIA, 2007). Por outro lado, nas indicações de Auteroche e Navailh (1992), uma pessoa “sem Shen” não tem brilho nos olhos, tem a compleição embotada, mente obscura, respiração trabalhosa e superficial.

 

  1. PULMÃO

Segundo Paiva (2011), a deficiência de Qi do Pulmão se caracteriza pelo recolhimento e pela dificuldade em entrar em estado de presença, vivendo um constante retorno ao passado, além do medo e dificuldade em criar vínculos afetivos duradouros: também se pode observar o pulso vazio, profundo e a língua pálida. Além disso, quando o Qi do Pulmão está deficiente, a respiração fica curta, a voz fica fraca e o organismo não tem força para produzir Energia de Defesa (Wei Qi) na superfície (AUTEROCHE e NAVAILH, 1992, pag.325).

Para  Caleri (2013) a função do Pulmão de captar o Qi se exprime na capacidade de gerar trocas, movimentar e desestagnar o organismo como um todo. Neste sentido, a deficiência na captação e distribuição do Qi acarreta em uma deficiência global no organismo, ocorrendo “sentimentos de solidão, abandono, isolamento, incomunicabilidade, tristeza, melancolia e inúmeras variações de sentimentos e sensações que refletem uma lentificação dos fluxos […]” (CALERI, 2013, pag. 115).

O desequilíbrio no elemento Metal está relacionado com um sentimento negativo em relação à existência, uma falta de esperança crônica (ECKERT, 2011, pag. 88). Ainda segundo o autor, como este elemento está ligado à estação do Outono e a emoção da Tristeza, parece difícil entender a essência desta energia, pois se trata de um movimento que se volta ao recolhimento, à despedida, à concentração, à necessidade de soltar aquilo que passou para conseguir fechar o ciclo.

  1. FÍGADO

A Estagnação do Qi do Fígado, sintoma característico de obstrução energética no fluxo deste meridiano, causará tensão emocional, seja por uma frustração na vida ou por raiva ou fúria reprimida, podendo gerar irritabilidade ou depressão (MACIOCIA, 2007, pag. 100). Segundo Caleri (2013), os suspiros são manifestações clássicas do Fígado em desarmonia, que invade o sistema do Pulmão, dificultando a respiração.

A apatia, amargura, preguiça, resignação e a falta de interesse, sintomas característicos da Depressão, também aparecem na desarmonia do elemento Madeira, sendo que os motivos podem ser variados: uma pessoa que teve uma educação muito rígida e foi castrada em sua expressão dos sentimentos, ou experiências contínuas de fracasso em que a pessoa desiste de impor-se (ECKERT, 2011, pag. 33). O autor ressalta que as desarmonias neste sistema podem gerar autoagressão, enxaquecas, epilepsias e doenças mentais como a esquizofrenia.

Desta maneira, avaliando os três padrões de desarmonia relacionados ao Transtorno Depressivo apresentados neste texto, será apresentada uma tabela com indicações dos pontos em Acupuntura para o tratamento desta patologia:

Quadro 1 / Tratamento para a Depressão

  Ponto Nome Significado Função
 

 

CORAÇÃO

 

C3

 

Shao Hai

 

 

Mar Interior

Disfunções maníaco-depressivas , também acalma o coração e pacifica o espírito
 

C7

 

Shen Men

 

Portão do Mente

Protege e acalma o Coração, pacifica o espírito e melhora as depressões
 

P7

 

Lie Que

 

Sequência Descontínua

Ponto de Conexão (Luo), dissemina o Qi do Pulmão e dissipa as influências nocivas, ativando o meridiano.

 

Quadro 1 / Tratamento para a Depressão (continuação)

BAÇO/PÂNCREAS BP3 Tai Bai Grande Branco Ajuda na organização interna, absorver, transformar, digerir e distribuir. Ajuda pessoas com tendência a acumular, controlar e que solicitam atenção exacerbada, sendo queixosa.
 

ESTÔMAGO

 

E36

 

Zu San Li

 

Três Distâncias da Perna

Ponto Mar, importante para tonificar o Qi e o Sangue, fortalecendo a Mente e o sistema imunológico de pessoa muito debilitadas.
 

FÍGADO

F2 Xing Jian Andar pelos

Meandros

Acalma o Fígado e dispersa o vento, principalmente quando o Fogo ascende até o Coração. Ajuda a controlar a hipertensão, inquietação, sono entrecortado e ansiedade.
 

F3

 

Tai Chong

 

Grande Ímpeto

Faz circular o Qi e o Sangue em todos os sentidos. Um ponto que acalma pessoas excessivamente agressivas.
BEXIGA B42 Po Hu Porta da Alma Corpória Fortalece a capacidade produtiva so Rim, melhorando a potência de vida, reduzindo o desânimo e ajudando a trabalhar as perdas e lutos

 

Quadro 1 / Tratamento para a Depressão (continuação)

RIM R1 Yong Quan Fonte Borbulhante Auxilia a resgatar ritmo para caminhar no mundo, transformando a sensação de estar perdido, desorientado e incapacitado para realizar os projetos.
VASO GOVERNADOR

 

 

VG20

 

Bai Hui

 

Centenas de encontros

Ajuda a harmonizar o excesso de movimento na cabeça, como pode aumentar o fluxo de informação nessa região
VASO

CONCEPÇÃO

 

VC17

Shan Zhong Um dinamizador da energia do Pulmçao e no Coração, fortalece o Qi Torácico (Zhong Qi), reduzindo estagnações e dinamizando a circulação
PERICÁRDIO PC6 Nei Guan

 

 

 

 

Portal Interno Reduz estagnações de Sangue e melhora o aporte de substância Yin no Coração..

 

 

Quadro 1 / Tratamento para a Depressão (conclusão)

PONTO EXTRA Yin Tang Hall da Mente —-

 

Ajuda na introspecção à medida que dispersa o excesso de Yang/movimento/calor. Facilita o contato com a intuição, a percepção sobre si mesmo, pois o Shen/Mente é estimulado, potencializando o raciocínio.

Fonte: Adaptado de Kidson (2006)

 

 

CONCLUSÃO

O presente texto buscou realizar uma discussão que pudesse abarcar as varias determinações que enredam o problema da depressão na contemporaneidade. Buscamos de início demonstrar como o modelo social atual – Capitalismo Mundial Integrado –diminui a potência de vida nos indivíduos e nas coletividades, produzindo subjetividades adoecidas, reafirmando a nossa necessidade de aproximar o tema da Clínica com as questões Políticas.

Deste modo, também buscamos tecer alianças com intercessores teóricos da filosofia clássica e moderna para compreender a crise do pensamento ocidental, marcada pela irredutível noção de dualidade absoluta que separa o homem da natureza, o corpo do pensamento e a razão da emoção. Deste modo, apostamos em outra visão de mundo, buscando na cosmologia oriental do Taoísmo e nas bases da Medicina Tradicional Chinesa a afirmação do princípio da unidade e da radical indivisibilidade da vida. Seguindo este pensamento, entendemos que a vivência espiritual, política, cultural, filosófica e científica não se encontram separados.

 Assim, entendemos que a utilização da Acupuntura para o tratamento da Depressão, deve levar em conta não apenas os sintomas que caracterizam a doença em seu sentido clássico, mas incidir sobre o máximo de determinações que a pessoa cria na vida e que possa estar em desarmonia, de modo a provocar a mobilização da energia/Qi no organismo. A busca pela saúde é a busca pelo livre fluxo de vida, capacitando o sistema orgânico a trabalhar para curar a si mesmo (KIDSON, 2006, pag.142).

Porém, ao realizar a busca por artigos científicos atuais que discutem a Depressão visando o tratamento pela Acupuntura, percebemos que ainda há um número incipiente de produções na perspectiva da Medicina Tradicional Chinesa sobre o tema. Isto parece condizer com o modelo de pensamento da MTC que não criou uma área específica para a Saúde Mental, ao passo que a nossa cultura está demarcada pelas especialidades da saúde, tendo na Psiquiatria e na Psicologia as principais áreas que cuidam dos sofrimentos classificados como psíquicos e emocionais.

Neste sentido, avaliamos que esta e outras pesquisas se fazem urgentes na contemporaneidade, tanto para contribuir com a literatura da MCT e instrumentalizar a profissão da Acupuntura no tratamento da Depressão, quanto pela compreensão das inúmeras determinações que produzem este adoecimento, perpassando também por um modelo existencial vigente que prejudica o afloramento da autonomia, autorrealização e das capacidades individuais e coletivas para a expressão, criatividade e demais potencialidades que aumentam a potência de vida.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AUTEROCHE, B.; NAVAILH, P. O diagnóstico na medicina chinesa. São Paulo: Andrei, 1992.

CALERI, D. Medicina Chinesa Viva: Arte e Singularidade. São Paulo: ÍCONE, 2013.

CANGUILHEM, G. A saúde: conceito vulgar e questão filosófica. In: Escritos sobre a Medicina. Tradução Vera Avella Ribeiro.1ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005, pag. 35 – 48.

CHERNG, Wu Jyh. Iniciação ao Taoísmo, volume I. 2ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2000.

COELHO, José Coelho. A tragicomédia da medicalização: A psiquiatria e a morte do sujeito. Natal: MJCM, 2012.

ECKERT, A. O Tao da cura: A teoria dos 5 elementos é o fundamento do Qi Gong, Tai Chi, Shiatsu, Feng Shui e Acupuntura. Tradução de  Dinah Abreu Azevedo. 2ª ed. São Paulo: Ground, 2011.

ESTEVES, F. C.; GALVAN, A. L. Depressão numa contextualização contemporânea. Aletheia, n.24, pag. 127 – 135, jul./dez. 2016. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/aletheia/n24/n24a12.pdf. Acessado em 17/08/2016.

FREIRE, R. et al (Org.).  Eu sou meu corpo. In: O tesão pela vida: SOMA, uma terapia anarquista. São Paulo: Francis, 2006. pag. 55 – 65.

FULDER, S. O Tao da medicina: Ginseng, remédios orientais e farmacologia da harmonia. Tradução de Aydano Arruda. 2ª ed. São Paulo: IBRASA, 1999.

 GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. 10. Ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

SANTOS, Mario José dos. Os pré-socráticos. Juiz de Fora: UFJF, 2011. 1ª Reimpressão.

DSM-IV. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Tradução de C. Dornelles. 4ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2002.

KIDSON, R. Acupuntura para todos: O que esperar desta técnica milenar e como obter melhores resultados. Tradução de Marilene Tombini. Rio de Janeiro: Nova Era, 2006.

MACIOCIA, G. Os Fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa: Um texto Abrangente Para Acupunturistas e Fisioterapeutas.São Paulo: Roca, 2007.

MARTINS. A (Org.). O futuro do corpo e da saúde: filosofia e psicanálise. 1. ed. São Paulo: Andreato Comunicação e Cultura, 2011. (Coleção Brasil 2014, Campo das ideias).

PAIVA, Regiane do Carmo. Acupuntura no Tratamento da Depressão. São José dos Campos: Unisaúde/Centro de Estudos Firval / Especialização em Acupuntura. Monografia de pós-graduação, 2011. Disponível em: http://www.firval.com.br/ftmateria/1411747007.pdf. Acessado em 17/08/2016.

PASSOS, E.; BENEVIDES DE BARROS. Clínica e biopolítica na experiência do contemporâneo. Revista de Psicologia Clínica PUC/RJ. 13(1), pag. 89 – 99, 2001.

REICH, W. A peste emocional. In: Análise do Caráter. Tradução de Ricardo Amaral do Rego. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. cap. 16, p. 461 – 466.

SIDORAK, M. Porque Acupuntura. Rio de Janeiro: Colina, 1984.